segunda-feira, 31 de março de 2014

+ poemas de NICOLAS BEHR










+ 5 poemas de



nicolas behr



PÓS-MARGINAL TARDIO II


adeus poesias perecíveis
adeus versos recicláveis


nunca mais poemas descartáveis
nunca mais poetas retornáveis


adeus livros biodegradáveis
adeus entulho literário não selecionável


adeus aterro acadêmico sanitário







se é para o bem de todos
e felicidade geral da nação
diga ao povo
que mande o rei à pátria
que o pariu

        se é para o bem de todos
        e felicidade geral da nação
        diga ao povo
        que o almoço tá na mesa


se é para o bem de todos
e felicidade geral da nação
diga ao povo
que o rei continua
torcendo pelo vasco


        se é para o bem de todos
        e felicidade geral da nação
        diga ao povo
        que o rei foi dar outra cagadinha

se é para o bem de todos
e felicidade geral da nação
diga ao povo
que salve-se quem puder

       se é para o bem de todos
       e felicidade geral da nação
       diga ao povo
       que o buraco é mais embaixo







tudo farei pelo bem comum
mas quero minhas compensações

exercerei este cargo público
com sacrifício
mas quero minhas compensações

pensarei apenas em vocês
mas quero minhas compensações





...





CAPIM-NAVALHA


eu, irrecuperavelmente eu
desgraçadamente eu
eu, irresponsavelmente eu


eu, o guardador
de rebanhos alheios
eu, que não consegui escrever
o poema em linha reta
eu, o anjo torto dos outros
eu, a sua adélia prado


é meu egozinho que tens na mão
não essa massa de celulose e tinta


que estas finas lâminas
cortem sua língua
como capim-navalha
e te livrem para sempre
do vício da palavra



...


TODO POETA É PRISIONEIRO
DO QUARTO ESCURO


lá onde a luz não entra
mesmo com as janelas abertas


lá de onde irradia uma luz
que não ilumina
lá onde existe uma lâmpada
acesa mais invisível
um farol apagado
uma vela de luz negra


o quarto escuro me chama
não sei onde fica o quarto escuro


quem quer soluções fáceis
não procura o quarto escuro


o quarto escuro é o repositório
das palavras sem uso






in: O BAGAÇO DA LARANJA / 2009



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sexta-feira, 14 de março de 2014

2 poemas de Diovani Mendonça






DIOVANI MENDONÇA



POR DENTRO SOMOS ==

basta de ficar surdo e mudo
vamos falar deste engano
que as cores do pano
da bandeira de um time

não sirva de escudo
para encobrir o crime
absurdo do racismo
em todo campo do mundo

porque no mais profundo
das veias do ser humano
todo sangue tem a mesma cor
pois nem o rei Pelé ou a rainha

da velha Inglaterra
têm o tal do sangue azul
de leste a oeste de norte a sul
o sangue de qualquer criatura

em toda extensão na face da Terra
do que habita do micro ao macro
do elefante ao inseto do rato ao macaco
sempre foi e será, VERMELHO VIVO!





DioVANI MendONÇA







RECADO PRUM CAMARADA POETA

entre os radicais
prefiro os + livres

os que não foram
adestrados por livros

e desenvolveram faculdades
de outras esferas e órbitas

os que percorreram buracos negros
entre vias-artérias desconhecidas

ensaiaram e venceram em sonhos
exércitos de anticorpos alienígenas

saltaram na realidade para a luta cientes
das infinitas possibilidades quânticas

de um lado e outro e passo a passo
conquistaram espaço

para estudar minuciosamente
no invisível bit a bit byte a byte

as linhas de programação
do sistema e só, após

se transmutaram em vírus
mutantes invencíveis

e se instalaram em órgãos vitais
nas inúmeras salas de controle

esses os que me interessam
os que ignoraram os manuais

de sobrevivência e são cobaias
da própria experiência




DIOVANI MENDONÇA



fonte: facebook do autor / postagens de 2014


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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Memória da cidade no olhar de Pedro Nava






















Memória da cidade no olhar de Pedro Nava






Médico dedicado, poeta bissexto e romancista postergado, o memorialista Pedro Nava deixou uma obra extensa e profunda sobre os resgates possíveis do tempo já passado (e perdido), sobre os caminhos e desvios da vida, sobre os amigos que se foram e sobre as feridas que não cicatrizam. Tudo descrito em tentativa de recuperação, de peleja com a saudade.

Sobretudo, Nava deixou um testemunho, um depoimento sobre o ‘mundo antigo’, sobre a vida no início do século 20, sobre as cidades em crescimento – Rio de Janeiro, Juiz de Fora e Belo Horizonte – futuras metrópoles regionais e nacionais. É um olhar sobre a mudança, sobre o que se conservou na memória, sobre o que só existe enquanto lembrança. Sua infância em período conturbado – golpes e revoluções -, seu apego aos amigos e lugares – uma verdadeira ‘geografia sentimental’ -, sua denúncia dos mandos e desmandos, em suma, um documento valioso para retratar meio século de cultura brasileira.

Em nosso breve ensaio vamos nos concentrar sobre as evocações de Nava quanto à cidade de Belo Horizonte nos anos 1910 e 1920, imediatamente antes da Revolução de 1930, época de coronelismo, tenentismo, fraudes eleitorais, voto de cabresto, alternância Minas-São-Paulo no plano político num metafórico ‘café-com-leite’, inovação modernista, polarizações esquerda-direita entre comunistas e integralistas, quando da consolidação do Stalinismo e da ascensão do Nazismo.

Dentro de tal contexto vamos nos localizar nas ruas de Belo Horizonte, no Capítulo II – Serra do Curral – de Balão Cativo [BC], com a mudança da família de Pedro Nava – de Juiz de Fora para a nova capital mineira (antiga Cidade de Minas, antes Curral del Rey). Nava morou com a família em casas nos bairros da Floresta e da Serra, e frequentava os bares junto aos abrigos de bondes, juntamente com os literatos Carlos Drummond de Andrade (vindo de Itabira/ MG), Cyro dos Anjos (vindo de Montes Claros/ MG) e Emílio Moura (natural de Dores do Indaiá / MG), dentre outros. O volume de memórias Balão Cativo foi escrito no Rio de Janeiro, entre outubro de 1970 e junho de 1973, e publicado neste ano, pela José Olympio Editora. Portanto meio século após as vivências e vicissitudes do jovem estudante de Medicina.

As personagens relembradas por Nava se situam numa geografia bem demarcada, em ruas da cidade cercada por montanhas, ainda sem as ascensões dos arranha-céus, ainda mais provinciana que metropolitana, aos cidadãos meio deslocados na nova geometria,

A urbe poeirenta e pobre acabava no Quartel, na Rua Maranhão, na Avenida Paraúna [atual Av. Getúlio Vargas], na Rua Tomé de Sousa, na rua dos Tupis, na Avenida Paraná, no Mercado, no Arrudas, nos leitos da Central e da Oeste. A Avenida Amazonas só tinha quatro quarteirões e a cidade mandava tímidos prolongamentos para a Serra, a Barroca, o Calafate, o Bonfim, a Floresta. Mais tarde vieram as enceintes de Carlos V, a de Luís XIII, do Dr. Artur Bernardes, do Coronel Cristo, da Olímpia, do Dr. Melo Viana, da Elza Brunatti, da Petronilha (Petró), do Dr. Antônio Carlos, da Leonídia (Lió), da sessão Fox no Odeon, dos porres de cerveja gelada, da decadência do Clube Belo Horizonte e esplendor do Automóvel Clube, da Universidade, da sua invasão, dum moço baleado chamado Viana, da retirada do Reitor e da dispersão dos Pimentéis. Era ainda uma cidade triste, de donzelas enclausuradas, de estudantes desmandados, de agiotas insaciáveis (o duto Murta, o gélido Moreira), de funcionários contidos e carentes, dos primeiros desfalques, das negociatas inaugurais e quase honestas … Entretanto crescera para além do Cruzeiro, materializara o círculo da Avenida do Contorno, tomara conta do Barro Preto, canalizara o Córrego Leitão, asfaltara o Centro e ligava-se, sem descontinuidade, ao Calafate, ao Carlos Prates, ao Bonfim, à Lagoinha. Estendeu-se mais ainda, em todas as direções; pulou os limites dos fermiers généraux, dos interventores da Ditadura, dos enriquecimentos mirabolantes, dos imensos negócios. Excedeu a de Thiers, a de Milton Campos (este – dizia Rodrigo – é um prêmio que Minas não merecia!), a de Juscelino, Bias, Magalhães Pinto, Israel, está na de Rondon, mas não vai parar! Porque a cidade sem limites continuará, passará a Baleia, as Mangabeiras, o Curral, o Rola-Moça, o Pindorama, a Pampulha, a Providência, Santo Agostinho, a Severa... Está livre dos velhos complexos sexuais do tempo de Totônio Pacheco, é a mais linda do sertão, a terceira do Brasil, passou aos pileques de uísque, tem inferninhos, instalou a livre-fodança, mas jamais, ah! Jamais sacudirá o jugo do velho crepúsculo, daquela tristeza da tarde morrendo varrida de ventos, da lembrança submarina dos fícus e dos moços que subiam e desciam a Rua da Bahia. Não a Rua da Bahia de hoje. A de ontem. A dos anos vinte. A de todos os tempos, a sem fim no espaço, a inconclusa nos amanhãs. Nela andarão sempre as sombras de Carlos Drummond de Andrade, de seus sequazes, cúmplices, amigos, acólitos, satélites... (BC, pp. 144-45)




Encontramos no texto certa referência ao protagonista “Totônio Pacheco” do romance (publicado em 1935) de João Alphonsus de Guimaraens (1901-1944), também referência a Loira do Bonfim (que figura também na poética de Drummond de Andrade), quando da expansão das linhas de bonde,
 
Em 1905 inauguram-se as linhas das Ruas do chumbo e Pouso Alegre. Estavam lançados os bondes Serra e Floresta. Em 1906 o Quartel corre até a Santa Casa e em pouco iria até a Praça Marechal Floriano. Em 1909 começam o Prado e o Bonfim – este logo mal-assombrado com uma passageira defunta que se desfazia aos poucos e entrava, na meia-noite mineira, as portas fechadas do cemitério. Em 1910 está feita a volta de Pernambuco e logo depois completa-se a de Ceará. A primeira saía do Bar do Ponto, tomava Afonso Pena, entrava na rua Pernambuco, subia Cristóvão Colombo (onde ficava o Abrigo Pernambuco), seguia, costeando. O altiplano da Praça da Liberdade, descia Bahia até chegar novamente ao Bar do Ponto. Às vezes ia mais longe porque os bondes deslizavam, sem freios que os contivessem, até os para lá dos Correios. Nessas ocasiões havia sempre cavalheiros e senhoras despedaçados, por pularem dos veículos de freio nos dentes. O que estamos contando era a volta de Pernambuco – via Afonso Pena. Porque quando era via Bahia, o trajeto era inverso e os tobogãs soltavam-se nas ladeiras de Cristóvão Colombo. A volta de Ceará começava no Bar do Ponto, como a outra. Ia por Afonso Pena, mas, em vez de virar à direita, fazia-o para a esquerda, entrando por Guajajaras e tomando Ceará depois de ladear o Colégio Arnaldo. Seguia essa rua até seu encontro com Afonso pena (onde ficava o Abrigo Ceará), descia Paraúna, entrava em Rio Grande do Norte, por esta chegava a Contorno, prosseguia até encontrar Cristóvão Colombo, subi-la, rentear o Palácio e as Secretarias, descer Bahia. Isto era a via Afonso Pena. Porque, como para a volta de Pernambuco – havia também um bonde Ceará, via Bahia. Esses trajetos eram extremamente românticos e permitiam aos namorados passar e repassar nas casas das eleitas janelando; multiplicar essas passagens mediante trajetos retomados quando os via Bahia e via Afonso Pena se encontravam nos abrigos. Esses abrigos eram barracões de madeira por onde se engolfavam as ventanias soltas e as chuvas. (BC, pp. 146-147)



Em seu saudosismo de memorialista, de reevocador de névoas passadas, o autor Nava realça as belezas de outrora, da cidade de sua juventude, ainda cheia das saudades dos funcionários ouro-pretanos, ainda não superpovoada, ainda sem o trânsito caótico, com seu ar parisiense de avenidas largas e boulevards, com abundância de verde e amplidão de horizonte – antes das podas e dos avanços verticais,

A beleza da praça da Estação, a árida subida da Caetés, os oito renques de árvores da Afonso Pena: no centro da avenida corriam duas filas de palmeiras-imperiais, as primeiras sacrificadas. Nos passeios, nas sarjetas, outras filas vegetais. Entre estas e as palmeiras, a teoria gloriosa dos fícus recentemente assassinados. Morte! aos prefeitos, cuja carapaça lhes impede a percepção das paisagens impregnadas do passado das cidades que eles desgovernam. Baldeação no Bar do Ponto. […] Contornava-se a praça do tempo das rosas e do tempo em que diante da Secretaria da Agricultura levantava-se miniatura em cimento do Itacolomi, diante da qual se reuniam em protesto gandiano (todo 12 de dezembro, aniversário da negregada instalação!) os antimudancistas ferrenhos. Saudades do Ouro Preto … Frente àquele Muro das Lamentações, choravam os manos Felicíssimos, [etc] […] Mas … larga essa valsa, Pedro! E toca o teu bonde. […] O bonde continuava e quer em Ceará, quer em Pernambuco – cada esquina era um buquê de meninas, um buquê de moças … Aimorés, Timbiras, Inconfidentes, Bernardo Guimarães. Vinde a mim! ruas do passado, vinde a mim! com vossos nomes de poetas do passado... Rua Gonçalves Dias … Rua Cláudio Manuel … Rua Santa Rita Durão... Onde estais? Ruas dantanho com vossas flores de neve e vossas moças do tempo jadis, Bertas, Beatrizes, Alices e as rainhas Brancas, como lis, cantando serenas com voz de sereia... (BC, pp. 148-49)



Para melhor entendermos a ‘geografia sentimental’ de Nava, precisamos situar Belo Horizonte rememorada também em Chão de Ferro [CF] , onde no Cap. II – Rua Major Ávila – é reevocada a central rua da Bahia, ponto de encontro e de despedida, de pertença e de deslocamento,

Quando se descia Bahia, depois da esquina da Caixa Econômica, se era noite deserta, logo que se punha o pé fora da calçada, no encontro da rua mencionada com Álvares Cabral e Guajajaras, ouviam-se vaias, gemidos e feias gargalhadas saindo do chão. Eram os membros mortos da família do curralense Francisco Cândido Fernandes (cuja velha casa do Cercado tinha sido derrubada para abrir passagem para aqueles logradouros da nova capital – apupando os belorizontinos intrusos). Tudo cessava quando, depois de se passar a casa de Bernardo Monteiro, se punha o pé no passeio do outro quarteirão – o do Diário de Minas, órgão oficial do famigerado Partido Republicano Mineiro. Descendo até a esquina de Paraopeba (depois Augusto de Lima) encontravam-se duas edificações ilustres na história de Belo Horizonte. De um lado, o Grande Hotel. Do outro, o Conselho Deliberativo. Esse palacete, absurdamente manuelino, que seria um dia cantado por Mário de Andrade, abrigava a Biblioteca Municipal que eu logo comecei a frequentar, nas tardes em que não ia encher a família do Dr. Bernardino. (CF, pp. 106-107)



Quando se descia Bahia, depois da esquina da Caixa Econômica, se era noite

Hoje o Conselho Deliberativo – de estilo manuelino - é o Centro Cultural, vulgo Castelinho, antes Câmara Municipal e Museu de Mineralogia (atualmente no Rainha da Sucata, na Praça da Liberdade), cuja biblioteca tem o nome do memoralista Pedro Nava, frequentador e divulgador de tal centro nevrálgico da intelectualidade belorizontina.

Mas continuemos, descendo Bahia. Já a cidade se adensava e o outro quarteirão dava-nos o Colosso, onde debochados comiam e bebiam em caramanchões cobertos de palha; quase em frente, o Café Estrela que nosso grupo ligaria depois à história do Modernismo em Minas; na esquina, no encontro Goiás, Goitacases, Bahia, fronteavam-se a Casa Poni, a Casa Narciso e o Teatro Municipal – hoje Cinema Metrópole. Finalmente era o trecho definitivo, do Cinema Odeon, do Giacomo Alluoto com suas cadeiras de engraxate, seus bilhetes de loteria; da casa do Cônsul da Rússia, depois dos Países Baixos, o sempre amável e cumprimentador Seu Arthur Haas – a cara do Imperador Ferdinando da Bulgária (Bonjour! Jeune homme) e finalmente as esquinas de Afonso Pena, Tupis, com as árvores do Parque, os seis renques das da rua, todos assassinados (dois centrais, de palmeiras, dois dos fícus (saudade), dois das calçadas, a linda Estação de Bondes com suas torrinhas, verde e seu relógio, a Sapataria Central, a Livraria (onde logo eu descobri ao fundo, a gaveta dos livrinhos de putaria e comprei o folheto com as obras-primas de Bernardo Guimarães que são o 'Elixir do Pagé' e 'A Origem do Mênstruo') e mais o 'umbigo do mundo' – o famoso Bar-do-Ponto, cujo nome transbordou de suas portas e passou a designar toda uma zona da cidade. (CF, pp. 107-108)


Em trechos do Capítulo IV – Rua da Bahia - BH ressurge na memória, a partir de certos lugares especiais, de convívio e amizade, estudo e trabalho, num itinerário que reativa antigas paisagens tal uma Madeleine mergulhada em chá – na obra do memorialista francês Marcel Proust – a despertar flashes involuntários, rua após rua, na avenida despojada de árvores e no parque municipal gradativamente reduzido,

Fecho os olhos para recuperar cada detalhes desta época. Belo Horizonte me vem em vagas. Elas me atiram pra lá pra cá, a este, àquele, a cada recanto da cidade e da nossa Serra. Ia a todos com os amigos, ora uns, ora outros, ora todos. Ao Banheiro. Ao bosque da Caixa de Areia, ao Pico, às veredas que subiam até ao muro do Curral. Levantava poeiras de outrora, [...] Pela primeira vez, nessas andanças senti que um passado me seguia e comecei a explorá-lo detalhe por detalhe. Logo uma saudade, saudade de mim, de meus eus sucessivos começou naquela ocasião, uma saudade vácuo como a que tenho de meus mortos e que me surpreendi, dando ao mim mesmo também irrecuperável, como se eu fosse sendo uma enfiada de mortos – eu. Tudo tão recente mas já tão longe e logo deformado. (CF, p. 287)

Jamais poderei esquecer-me de ti Belo Horizonte, de ti nos teus anos vinte. E, se isso acontecer, que, como no salmo, minha mão direita se resseque e que a língua se me pegue no céu da boca. Belo, belo – Belorizonte. Minas – minha confissão. (CF, pp. 306-307)

Nas plantas primitivas de Belo Horizonte o Parque Municipal era um vasto quadrilátero limitado por Mantiqueira; Francisco Sales; pelos logradouros ocupados hoje pelo viaduto Santa Teresa, Rua Assis Chateaubriand; e Afonso Pena. Seus ângulos eram cortados ligeiramente (o que lhe conferia aspecto octogonal) por Bahia, pelo trecho desaparecido do quarteirão limitado por Itambé, Itatiaia, Assis Chateaubriand e Francisco Sales, por Bernardo Monteiro e Carandaí. Hoje ele ocupa a quarta parte do espaço previsto para essa zona verde central e está reduzido ao triângulo demarcado pela Alameda Ezequiel Dias, Avenida dos Andradas e sua velha marca anterior de Afonso Pena. Parabéns aos senhores Prefeitos progressistas. Pêsames à população de Belo Horizonte, particularmente às crianças residentes nos arranha-céus do centro. A invasão foi sendo lenta e sorrateira. (CF, p. 315)




A rua da Bahia, com sua paisagem urbana, é sempre exumada do passado como um umbigo do mundo, de BH enquanto microcosmo, ou cidade-modelo, que se expandia sem controles, inchada pelo êxodo rural e pelo superpovoamento, procurada como abrigo de deslocados e despossuídos, 

Todos os caminhos iam à Rua da Bahia. Da Rua da Bahia partiam vias para os fundos do fim do mundo, para os tramontes dos acabaminas... A simples reta urbana … Mas seria uma reta? Ou antes, a curva? Era a reta, a reta sem tempo, a reta continente dos segredos dos infinitos paralelos. E era a curva. A imarcescível curva, épura dos passos projetados, imanências das ciclóides, círculo infinito… Nós sabíamos, o Carlos [Drummond de Andrade] tinha dito. A Rua da Bahia era uma rua sem princípio nem fim. Descíamos. Cada um de nós era um dos moços do poema. Subíamos. 'Um moço subia a Rua da Bahia... (CF, p. 352)
 


O próximo livro de memórias tem por título Beira-mar [BM] , mas não fala do Rio, fala de Minas Gerais, assim trata-se de uma continuação temática e espacial de Chão de Ferro, no período da BH dos anos 1920. No capítulo 2 [Rua da Bahia], Nava entra em detalhes sobre a chamada caravana paulista, em visita por Minas Gerais, em 1924, com as ilustres presenças dos modernistas Oswald e Mário de Andrade, da pintura Tarsila do Amaral, do poeta franco-suíço Blaise Cendrars (mutilado na Grande Guerra de 1914-18), e acompanhantes. Desta visita resultou o longo poema “Noturno de Belo Horizonte” , de Mário ‘Macunaíma’ de Andrade, com seus versos longos, suas paisagens cubistas e surrealistas, de imagética bizarras e invocatórias. “Maravilha de milhares de brilhos e vidrilhos, / Calma do noturno de Belo Horizonte... / O silêncio fresco desfolha das árvores
E orvalha o jardim só. / Larguezas. / Enormes coágulos de sombra. / A polícia entre rosas..
.”

Da Praça da Liberdade ao Parque Municipal, da zona boêmia ao Bar do Ponto, da Igreja São José ao Quartel militar, do alto do Cruzeiro ao viaduto Santa Teresa, a geografia se estende aos pontos cardeais, colaterais, sentimentais de uma cidade que se expande, deitando tentáculos rumo a serra e o horizonte, a manter um núcleo de referência na parada dos bondes, antes de se dispersarem,

Ponto – porque era o local da Estação dos Bondes. Vejo-a ainda, construção meio de tijolo, meio de madeira, com três entradas sem portas, pintada a óleo e dotada dum torreão para o relógio. Seu verde era semelhante ao dos pistaches e contrastava, qual outra cor, com os verdes dos seis renques de árvores da Avenida Afonso Pena e com os mais numerosos do Parque. Porque a estação debruçava-se sobre ele, naquele ponto de inflexão da rua da Bahia. […] O café chamado Bar do Ponto estava para Belo Horizonte como a Brahma para o Rio. Servia de referência. No Bar do Ponto. Em frente ao Bar do Ponto. Na esquina do Bar do Ponto. Encontros de amigos, encontros de obrigação. (BM, p. 5)

Quem queria ir até as lindes do Grande Bar do Ponto podia descer um pouco de Bahia, renteando o triângulo ocupado pelo Correio antigo. Era justamente o lado onde se abria o portão que dava entrada ao misterioso Colis-Postaux e logo se batia de cara com a reta do Viaduto Santa Teresa. (BM, p. 8)

Quem chegava às larguras da travessia de Espírito Santo e Tamoios sobre a avenida [Afonso Pena] contemplava dali as cercaduras – dum lado, do Templo Protestante e do outro, da Matriz de São José. Essa igreja é bem proporcionada e antigamente suas três torres destacavam-se no céu livre de Belo Horizonte. Hoje ela encolheu, perdeu altura, esmagada pela paliçada de arranha-céus construída nas suas costas. Da via pública subia-se ao adro por escadaria imponente – trinta e oito degraus, interrompidos por três patamares. (BM, p. 9)



As amizades literárias de Nava incluíam os poetas futuristas do chamado Grupo do Estrela, que logo publicariam A Revista, a serem motivos de escândalos entre as gerações conservadoras do meio literário na nova capital. Os moços, que desciam e subiam a rua da Bahia em meditações estéticas e metafísicas, se reuniam no ambiente belle époque do Estrela e depois flanavam pela provinciana capital.

Belo Horizonte era uma capital profundamente quieta e bem-pensante. Amava o soneto, deleitava-se com sua operazinha em tempos de temporada, acatava o Santo Ofício que censurava por sua conta os filmes, suas moças liam Ardel, Delly; a Bibliothèque de ma Fille, a Collection Rose, não conversavam com rapazes e faziam que acreditavam que as crianças pussavam nas hortas entre pés de couve, raminhos de salsa, serralha, bertalha e talos de taioba. Havia uma literatura oficial. Os discursos de suas excelências eram obras antológicas. (BM, p. 199)





Em suas memórias, longas e detalhistas, Pedro Nava, médico e literato, relembra seus estudos de Medicina, seus amigos e colegas médicos, além dos seus passeios na zona boêmia com amigos e literatos. Todo um novo mundo se abria para o jovem interiorano (ele nasceu em Juiz de Fora, tendo vivido certo tempo no Rio de Janeiro, ainda criança) na nova capital, tão profundamente vivida e descrita, marcada com amor e indignação na mente do jovem, que meio século depois vem a resgatá-la em forma de narrativa autobiográfica e historiográfica, além dos dramas pessoais ao abarcar os panoramas coletivos. Afinal, o saudosista memorialista nada é sem sua ‘geografia sentimental’ no xadrez das ruas belorizontinas.













By Leonardo de Magalhaens




junho/2013



















Referências




CHIARA, Ana Cristina. Pedro Nava, um homem no limiar. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001.

LE MOING, Monique. A solidão povoada. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

NAVA, Pedro. Balão Cativo. Memórias 2. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
(2ª ed, J. Olympio, 1974)

_________ . Chão de Ferro. Memórias 3. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976.

_________ . Beira-mar. Memórias 4. São Paulo: Ateliê Editorial : Giordano, 2003.

PANICHI, Edna Regina Pugas. Pedro Nava e a construção do texto. Londrina, PR: Eduel; São São Paulo: Ateliê Ed., 2003.




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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Novos Ensaios em MEU CÂNONE OCIDENTAL 2014







Novos Ensaios

em

MEU CÂNONE OCIDENTAL


2013 / 2014


O Grande GatsbyF. Scott Fitzgerald [EUA]





LolitaVladimir Nabokov [EUA]




A Consciência de Zeno – Italo Svevo [Ita]




Herzog Saul Bellow [EUA]


O Livro de Daniel – E. L. Doctorow [EUA]


Complexo de Portnoy – P. Roth [EUA]


Pedro Páramo – Juan Rulfo [Mex]


A Laranja Mecânica – A. Burgess [UK]



2013 - 2014


by
LdeM

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

2 poemas de Mário Cesariny




                                                      fonte da imagem: http://www.relampago.pt/




MÁRIO CESARINY



You Are Welcome To Elsinore


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas   portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar







O prestigitador organiza um espetáculo

Há um piano carregado de músicas e um banco
há uma voz baixa, agradável, ao telefone
há retalhos de um roxo muito vivo, bocados de fitas de todas as cores
há pedaços de neve de cristas agudas semelhantes às das cristas de água, no mar
há uma cabeça de mulher coroada com o ouro torrencial da sua magnífica beleza
há o céu muito escuro
há os dois lutadores morenos e impacientes
há novos poetas sábios químicos físicos tirando os guardanapos do pão branco do espaço
há a armada que dança para o imperador detido de pés e mãos no seu palácio
há a minha alegria incomensurável
há o tufão que além disso matou treze pessoas em Kiu-Siu
há funcionários de rosto severo e a fazer perguntas em francês
há a morte dos outros ó minha vida

há um sol esplendente nas coisas





mais links










quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

05 anos de PRIMEIRAPESSOAPLURAL !







Sobre a obra PRIMEIRAPESSOAPLURAL
(Árvore dos Poemas, Contagem, 2008)
do Poeta (e contista) Lecy Pereira Sousa

Poemaremos sem fim por falta de opção

   Sabemos que o mito da 'oportunidade iguais para todos' se revela um mito tão fabulístico quanto a 'liberdade de mercado'. Percebemos que 'o mercado sem Estado' é mera 'ideologia neoliberal', e que se a 'vida é uma corrida', alguns saem 50 metros a frente de outros tantos.

   Sendo assim qualquer pregação de coerência revela-se ideológica e metafísica - não há redenção no 'deserto do real'. Só há uma existência do 'sou o que tenho' e uma pseudo-existência virtual - 'sou o que a mídia diz'.

   Sem opção, sem oportunidades, resta a ironia, o poemaremos por teimosia, por cinismo, por insubordinação e 'desobediência civil'. Assim, o Poeta Lecy Pereira Sousa não busca um 'sistema poético', não vem pregar mais nada, apenas distribuir fragmentos em rascunhos em guardanapos, num 'mix' de influências, num mosaico de colagens, juntando logomarcas e citações, numa série de imagens cubistas, quadrilhas futuristas e 'haicais' irônicos.

   A poesia de PRIMEIRAPESSOAPLURAL é demasiadamente pessoal sendo obscenamente coletiva, numa bacanal de linguagens, numa orgia de corpos-objetos, sem deixar de denunciar e de verter amargura.

   Afinal, o poeta sofre com a falta de opção. "Diluir a melancolia / Na rústica face do dia / Somos seres fragmentados / Numa solidão coletiva" e também "Não fazemos poesia / A poesia é quem nos faz / Meio tortos, meio retos / Meio iniciantes, enfim"

    O Mundo é construído de fragmentos, "construir um fabulário / De pedaços / De nossas vidas", de pedaços desconexos, sem sentido, para os quais buscamos um sentido numa ordem coerente,

Querer que tudo faça sentido
É de uma chatice sem fim
Experimente poemas menos quadrados
Beba um pouco de tinta nanquim
Para cuspir flores no deserto da realidade

    O mundo está aí para ser sentido. Como dizia Alberto Caeiro, como dizia Clarice Lispector. "Para sentir o mundo / Há que assuntar as coisas / Com precisão dos olhos de lince / E procurar ao redor do mundo / Sentido que está atrás do Sentido" , numa espécie de 'prólogo' para o Manifesto da p. 31,

Sem artificialismos, assim,
respiramos no casulo da vida.
Vibramos por poéticas
universais feitas nos quintais
de nossas casas imaginárias.
Por linguagens que só
os corações sabem entender.

   Desse 'sentimento do mundo' nasce a rebeldia poética. Quando o Poeta enfim desabafa, como vemos em "Discurso transitório" , "Senhoras e senhores / Tenhamos a hombridade / De viver dentro da verdade. [...] Porque essa é a nossa luta: / um rasgo de dignidade / Na face da canalhice. [...]"

   Dialogando e discursando em hibridismos e metáforas, a poesia é a forma-mor de comunicação não alma a alma, mas paixão a paixão. Afinal, uma poesia que não emociona, não merece atenção. Quando aqui o poeta Lecy expõe-se desnudo de boas-maneiras politicamente corretas quando não só pretende chocar, mas tornar o leitor um cúmplice, ele torna a sua voz-pessoal em discurso-coletivo, daí nascer o 'nós', a primeira pessoa do plural.

   Lecy não diz 'eu vou poemar sem fim', mas "poemaremos sem fim", pois a sua voz é coletiva - e coletiviza - assim sub-entendida, pois "poemaremos", etc, mas está atento ao que se espera dele, enquanto Poeta, no sentido de 'voz coletiva'. Um João Batista às margens do Jordão. Porém, uma diferença, que Profeta, que Messias, Lecy estará aqui pré-anunciando?


Poemaremos por falta de opção
Rijos tensos intumescidos
Retesadamente lascivos
Ao cair da noite & ao levantar do sol
Duros de coração
Monossilábicos átonos atônitos


   E continua assim por mais 6 páginas, num fôlego caótico e cubista, sem pausas, sem meias-palavras, sem considerações com terceiros, sem loas aos ídolos, sem piedade para com as autoridades , ao estilo de um Beat sem eira nem beira, sozinho no meio da multidão em andanças nas ruelas de Paris, no meio das multidões dos boulevards, e morrendo de tédio!, despejando um desespero lírico e convulsivo de sílabas de rimas esdrúxulas de palavras-valises de neologismos de citações e barbarismos, e rótulos de mercadorias e ícones do consumismo.

   Mas por que todo este mal-estar na modernidade? Ora, vamos ler Freud, ler Sartre! Por enquanto sem explicar, mas se deixando levar! Somente por indignação e insatisfação! Desobedientes, insubmissos, subversivos, em pleno "ano que ainda não terminou" (1968??), como esbraveja o poema "Diversos demais" :

Insatisfeitos com a norma
Insatisfeitos com a forma
Arredios à métrica
Desafeitos ao decassílabo
Nós somos uns subversivos

   Que a aura beatnik subversiva - e multipluricolorida - do Poeta Lecy Pereira Sousa continue a nos emocionar, ousando cores no mundo cinzento, além de flores versoviçosas no asfalto cotidiano.
 

2008/2011

Por
Leonardo de Magalhaens




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