segunda-feira, 1 de setembro de 2014

3 textos de Fernando Bonassi - in A Boca no Mundo


 

 




Fernando Bonassi

 



crônicas na Folha de São Paulo
 


2002 - 2006


 




9/ BREVE ESTUDO SOBRE A NORMALIDADE


 
Normalmente é um encontro. Normalmente é num tesão. Normalmente é um receio. Normalmente é uma espera. Normalmente é urgente.

Normalmente é cesariana. Normalmente o leite empedra. Normalmente as fraldas fedem. Normalmente os filhos crescem. Normalmente as tias mimam. Normalmente as mães reclamam. Normalmente os pais se mandam... normalmente é uma outra.

Normalmente dá despesa. Normalmente dá trabalho. Normalmente é sem emprego.

Normalmente o recheio é pouco. Normalmente a casca é grossa. Normalmente o buraco é fundo. Normalmente é lá pra baixo. Normalmente o mais gostoso.

Normalmente o rabo não encurta, a curiosidade não mata e nem todos que têm boca chegam à Roma.

Normalmente as camisinhas são guardadas, as contas pagas, inconfidências escapam, o estômago se revolta, o veneno é conhecido e alguém já havia pensado nisso antes.

Normalmente os últimos ficam sem. Normalmente os primeiros têm mais medo. Normalmente os do meio não levam vantagem. Normalmente é sacanagem.

Normalmente vocações são encontradas, normalmente virgindades são perdidas: os dedos apontados, as pernas abertas, as mãos estendidas.

Normalmente os calos surgem. Normalmente o sapato aperta. Normalmente o troço é mole. Normalmente o espelho alerta. Normalmente a vingança é fria. Normalmente faltam dentes. Normalmente o vizinho espia. Normalmente a orelha quente. Normalmente os mundos se fazem de surdos e os cães guiam os cegos.

Normalmente falta luz. Normalmente a água bate por aqui. Normalmente aqui é o único lugar. Normalmente os afogados comem o peixe cru. Normalmente coisas são pescadas no ar. Normalmente o ar está poluído pelas coisas que são arremessadas nele. Normalmente encanamentos e encanadores dão problemas de manutenção. Normalmente a inocência é uma explicação.

Normalmente é o passado, uma oportunidade, um sofrimento, uma esperança. Normalmente é um consolo. Normalmente se ajeita, se conversa, se aceita.

Normalmente amanhece o dia. Normalmente suaviza a noite.
Normalmente sonhos e pesadelos se confundem. Normalmente a confusão é desfeita com um pouco de consciência. Normalmente consciência é sabedoria. Normalmente a sabedoria está na escola. Normalmente os professores corrigem provas. Normalmente as provas são insuficientes.
Normalmente os curiosos são mais rápidos que a polícia; a polícia mais rápida que as ambulâncias e as ambulâncias mais rápidas que os carros funerários.
Normalmente é tiro trocado, é arma raspada, é sem testemunha.
Normalmente as leis são compridas e as letras minúsculas. Normalmente as obrigações são maiores. Normalmente os juízes não têm pena.
Normalmente os sorrisos, as piteiras, as roupas de baixo, os jornais e as fotografias amarelam.
Normalmente os mapas se complicam, os tênis se desgastam, os povos se misturam, as paixões se esgarçam, os monumentos são recobertos pela bosta das pombas e a História se repete.
Normalmente os pedestres são atropelados pelos bois, os bois são atropelados pelos carros, os carros pelos ônibus, os ônibus pelos trens e muitos aviões sobem por aqueles que caem. Normalmente as estatísticas confortam os ateus. Normalmente ateus viajam de avião. Normalmente os ateus vão à igreja.
Normalmente o Diabo tenta. Normalmente Deus perdoa.
Normalmente a carne é fraca e a vontade é grande. Normalmente é de fumar, é de beber, é de cheirar ou de comer. Normalmente é proibido. Normalmente é tudo junto. Normalmente a gente faz.
Normalmente os valores passam pelas rugas, a decência pelas blusas, os ferros pelos vincos, os prazeres pelas calças, a poesia pelas musas, as malas pelas alças e os inimigos pelas costas.
Normalmente as feridas cicatrizam e as varizes aparecem. Normalmente os sacos enchem e as bundas caem. Normalmente é cada vez mais ginástica por peso vencido. Normalmente há um sentido. Normalmente há um marido.

Normalmente não tem cigarro. Não tem pulmão. Normalmente não tem trocado, não tem espaço, não tem importância.
Normalmente é da carteira pra bolsa e da bolsa pro caixa. Normalmente é o mercado, o supermercado, o hipermercado etc.
Normalmente é uma hora e outra. Normalmente é desde sempre. É um ovo, um arroz e um feijão. Normalmente há uma razão. Normalmente só complica. Normalmente é um princípio. Normalmente um precipício.
Normalmente está lotado: um caminho é cortado, palavrões arremessados no retrovisor, milhões de mortos no televisor.
Normalmente atrás vem mais. Normalmente uma necessidade. Normalmente é outra fila, uma taxa, uma bolacha.
Normalmente a especialidade é cara, o salário é pouco, a fome é tanta, o remédio é raro... mas a morte é certa.


fonte: A BOCA NO MUNDO – 100 crônicas de Fernando Bonassi
São Paulo / Novo Século / 2007








16/ TEXTO PARA LEITURA

O que dizer por todos esses livros no zoológico das estantes?
Livros são animais sexuados: livros são metidos, livros são gestados, livros são paridos. Livros crescem, como meninos. Livros sangram, como meninas. Livros infantis com ideias de aprendiz. Livros de aventura pra estimular a travessura. Livros de iniciação pras pessoas em formação. Todo livro é um livro da vida (mesmo os livros de contabilidade, que são livros de dívidas). Livros de poesia controlam a azia. Livros de História fortalecem a memória. Livros de viagem aperfeiçoam a paisagem. Livros de religião aumentam a devoção. Livros de química servem pra misturar. Livros de teste, pra confundir. Livros de lógica, pra entender. Livros didáticos, pra explicar. Livros revolucionários são livros vermelhos espetados no ar. Livres pra reclamar, livros de arrepiar!
Mas... com quantos livros se faz uma pessoa?
Livros de tabuada pra conta calculada. Livros de auto-ajuda praquilo que não muda. Livros de lazer pra quem tem muito o que fazer. Livros de direito pra homens de respeito. Livro de reza quando a coisa pesa. Livros em liquidação para leitores sem condição. Livros de oratória, livros de ortografia, livros de culinária, livros de psicologia. Livros em orgia. Livros pornográficos levados pra cama. Livros de etiqueta pra pôr a mesa. Livros sádicos. Livros trágicos. Livros míticos. Livros pro alimento do espírito e dos editores. Livros pra vaidade dos escritores. Livros especiais. Livros espaciais. Livros de colecionadores. Livros de informática são livros de computador. Livros de condolências são livros cheios de dor. Livros ensinam a ler. Livros pro humor. Livros pra quem quiser ver. Livros loucos pra saber. Livros com ilustração auxiliam a compreensão. Livros beijados, livros mordidos. Livros apalpados, livros espremidos. Livros lambidos como frutos escorridos. Livros embebidos. Livros embevecidos. Livros abraçados como casais apaixonados. Livros são romances cultivados. São feridas, são repastos. Livros passados de mão em mão, como boas biscas. Livros de arte. Livros de artistas. Páginas arrancadas sem vergonha, livros fumados com maconha. Livros de piada. Sacos de risada. Palavras cruzadas e frases alinhavadas. Livros depenados. Livros invocados. Livros em conflito. Páginas de livros processados em juízo. Livros censurados. Livros permissivos. Os livros das sopas, os livros dos sonhos, o livro dos molhos. Livros molhados nos clubes de livros. Livros de ocorrência. Livros policiais. Livros de referência. Livros originais. Livro pra orientação num universo em expansão. Livros equivocados. Livros inquisitivos. Livros engavetados. Livros recolhidos. Livros esmagados nos ônibus lotados. Livros encoxados, livros encolhidos. Livros espalhados por baixo dos estrados. Livros deflorados. Livros chacoalhados. Livros escondidos. Livros arremessados nos divórcios acalorados. Livros feito espadas. Livros como escudos. Livros que berram e livros que são mudos. O pior livro de cego é aquele que não quer se ler. Livros na ponta da língua. Livros com a ponta dos dedos. Livros engrossam, como rapazes. Livros melhoram, como mulheres. Livros murchos, livros sujos, livros finos. Livros como manda o figurino. Livros de moda. Livros em falta. Livros de sobra. Livros que cheiram bem e livros que cheiram mal (livros de renúncia fiscal). Livros roubados. Livros comprados. Livros vendidos. Árvores de livros abatidos. Livros de cabeceira. A fertilidade dos livros de madeira. Livros exibidos como corpos oferecidos. Livros safados. Livros falados. Livros sorvidos. Livros conservadores nas gavetas dos doutores. Livros emocionais pra cólicas menstruais. Livros de regime. Livros de política. Livros de ótica. Livros de crítica. Livros diários são livros crônicos, são livros cômicos, são livros tônicos. Dicionários de livros explicados. Raciocínios apalavrados. Teses de mestrado. Bolsas de livros financiados. Tomos, tombos, citações. Parágrafos, capítulos, correções. Publicações, polêmicas, opiniões. Livros importados. Livros transportados. Livros traduzidos. Livros encomendados, livros encarecidos. Livros encardenados como faraós embalsamados. Livros aposentados. Livros comentando livros. Livros lavrados em cartórios hereditários. Livros aplicados e homens especializados. Diplomas de livros emparedados. Livros emparelhados. Bibliotecas de livros amontoados. Sebos empoeirados. Livros decorados são livros encruados são livros mal comidos. Livros devorados por vermes aculturados. Livros bichados. Livros suados. Livros vencidos. Caixas e caixas de livros caixa. Arquivos mortos em pandemônio, as fortunas dos livros de patrimônio. Livros de capas trocadas, capas disfarçadas, capas ofensivas. Livros de capas ousadas. Capas proibidas. Os livros contra capas. Os lidos pelas costas. Livros sádicos, livros cínicos, livros mágicos. Livros lívidos, livros épicos, livros bíblicos. Livros lidos como vícios. Livros de sacrifícios. Todo homem é um livro aberto. Todo livro acha que é certo. Escreveu, não leu, continua sendo livro. Já no início era verbo! Larga a mão de ser burro e leia.


fonte: A BOCA NO MUNDO – 100 crônicas de Fernando Bonassi
 

São Paulo / Novo Século / 2007



 









18 / HOMEM-BOMBA


 



(A Murilo Mendes)


O Homem-bomba, futuro inquisidor, decora o livro sagrado e soletra estilhaços do caos. O Homem-bomba prepara um discurso épico e fala sozinho com as câmeras de televisão. O Homem-bomba terá, no mínimo, assegurado seus quinze minutos de fama. O Homem-bomba recebe extrema unção em solitários estúdios isolados antes da última ceia. O Homem-bomba, independente dos nossos erros, será abençoado.

O Homem-bomba fará uma refeição simples. O Homem-bomba rezará antes dela. O Homem-bomba não comerá carne. O Homem-bomba ainda se deitará entre os vivos. O Homem-bomba, se dormir, sonhará com calcinhas diáfanas, tesouras de perna aberta, espadas enterradas e umbigos deformados. O Homem-bomba poderá acordar pensando em urinar, mas quando o Homem-bomba acordar realmente, não estará mais pensando. O Homem-bomba poderá ver o dia clarear e não mudará de ideia. O Homem-bomba, na última noite, por essas e outras, poderá fazer amor.

O despertador do Homem-bomba é infalível e ele levanta cedo. O Homem-bomba toma banho, veste seu colete sob medida e um casaco pesado por cima (faça chuva ou faça sol). O Homem-bomba faz o desjejum pela última vez, como todos os últimos dias. O Homem-bomba poderá conhecer o pão que o diabo amassou, com manteiga. O Homem-bomba poderá passar geleia por cima. O café com leite do Homem-bomba terá um significado político que paulistas e mineiros desconhecem.

Outros homens, mais ou menos bombas, também se erguerão das casas geminadas desses morros de periferia pra continuar a vida. Detalhe significante: o Homem-bomba se ergue pra continuar a morte: beija a esposa, os filhos e segue para o trabalho.

O Homem-bomba não tem carteira assinada. O Homem-bomba não bate ponto. O Homem-bomba não tem férias ou cesta básica. O Homem-bomba não requererá aposentadoria. O Homem-bomba tem pressa. O Homem-bomba deixará tudo pra trás.

O Homem-bomba tem pra onde ir (o lugar do Homem-bomba é aquele onde cair morto). O Homem-bomba é um cidadão comum disfarçado de revolução e a revolução disfarçada de terra arrasada (na mochila do Homem-bomba, os talheres batucando com a marmita também seriam meros disfarces). O almoço do Homem-bomba já se encontra colado ao seu estômago: uma dúzia e meia de bananas (de dinamite). O Homem-bomba também adora os coletivos de sardinhas enlatadas pra causar indigestão. O Homem-bomba tem vale transporte ou o dinheiro contado. O Homem-bomba tem uma ilusão. O Homem-bomba tem uma certeza. O Homem-bomba tem uma missão.

O Homem-bomba não brinca com fogos (mesmo os de artifício). O Homem-bomba desafia as buzinas, as alfândegas, os alarmes e os detectores de metais. O Homem-bomba não tem pena, não tem culpa, não tem respeito. O Homem-bomba não tem paciência pra bobagens de qualquer tipo.

O Homem-bomba defende sua causa, sua casa, suas calças, mas não lavará suas roupas sujas de sangue. O Homem-bomba é um burro de carga perigosa. O Homem-bomba é instável. O Homem-bomba não pode ficar nervoso. O Homem-bomba já não teme os outros homens, bombas ou não. O Homem-bomba é um serial killer de uma vez só. O Homem-bomba não sobreviverá a esses tempos. O Homem-bomba vai... e racha-se.

O Homem-bomba sobe pelas paredes enquanto os templos vigiados fazem o possível pra não se perderem das fundações. O Homem-bomba amplia os horizontes decapitando construções e construtores. O Homem-bomba poderá se reconhecer num kamikaze. O Homem-bomba não poderá ser reconhecido depois dos acontecimentos. O Homem-bomba terá feito História.

O Homem-bomba não pega só quem é do seu tamanho. O Homem-bomba exerce sua liberdade onde não acaba a dos outros. Pro Homem-bomba, no dos outros é puro refresco ardido!

O Homem-bomba é um desmaterialista (os nossos torturadores dirão que é romântico). O Homem-bomba tem medo do escuro. O Homem-bomba acha que é maduro, mas acredita que vai encontrar um pote de delícias no fim do arco-íris. O Homem-bomba é inimigo do Homem de Lata. O Homem-bomba é parente do abridor de garrafa, do gambá, do alicate e da serpente, invocando Deus de igual para igual. O Homem-bomba alega legítima defesa às portas do inferno. O Homem-bomba é essa porcaria de vísceras misturadas nas calçadas empoeiradas. O Homem-bomba é corajoso. O Homem-bomba é mesquinho. O Homem-bomba é espetacular! Pro Homem-bomba, quanto mais quente melhor!!! O Homem-bomba sepultará as Américas com o calor de cem sóis!!!

O Homem-bomba é um louco, é um mártir, é um bosta...

Será o Homem-bomba redimido pela cirurgia dos explosivos plásticos?

O Homem-bomba... é um homem... é uma bomba... este texto se autodestruirá em cinco segundos... quatro... três...



fonte: A BOCA NO MUNDO – 100 crônicas de Fernando Bonassi
 

São Paulo / Novo Século / 2007




terça-feira, 26 de agosto de 2014

Literatura e o irracionalismo em Onde vais, drama-poesia?




Literatura e o irracionalismo / surrealismo
na obra Onde vais, drama-poesia?
de Maria Gabriela Llansol (1931-2008)


Leonardo de Magalhaens


Fale/UFMG


Introdução


       Ao relacionar sonho e ficção, Sigmund Freud, o fundador da Psicanálise, em seu artigo Escritores Criativos e Devaneios, se pergunta sobre o efeito das obras de ficção/fantasia sobre os leitores, o modo como as fantasias e devaneios dos autores atuam sobre os leitores, sobre as relações entre as fantasias e os desejos ocultados, sobre a fantasia enquanto reconquista do mundo da infância. Qual o padrão egocêntrico nas fantasias? A narrativa pode desvelar o/a autor/a? A biografia ilumina os meandros da criação artística? O efeito sobre os leitores advém da identificação com os biografemas? Ou é devido às fantasias compartilhadas?
Freud argumenta que as fantasias fazem efeito sobre os leitores pois não são apenas as fantasias do autor, mas ocorre uma confluência de fantasias, em suas sublimações e deslocamentos, quando a partir da fantasia do Outro há uma aceitação da fantasia do Eu. “Em minha opinião, todo prazer estético que o escritor criativo nos proporciona é da mesma natureza desse prazer preliminar, e a verdadeira satisfação que usufruímos de uma obra literária procede de uma liberação de tensões em nossas mentes.” Aqui uma verdadeira catarse ocorre quando tomamos contato com uma fantasia alheia reelaborada de modo estético. Assim é a literatura enquanto tentativa de dizer – e assim desvelar - o mais profundo Eu.
       Então como a literatura, e mais especificamente o surrealismo e o realismo-mágico, liberta – ou possibilita a libertação de – os conteúdos inconscientes nas elaborações das obras? Como se apresentam os conteúdos de fantasia e de devaneio nas obras dos surrealistas ou dos realistas-mágicos, dedicados ao desvelamento de absurdos? Será o transbordar do mundo onírico o modo mais comum de apresentação dos conteúdos inconscientes? Tanto a poesia quanto a prosa poética são modos ideais para manifestações do recalcado, ou se equivalem às obras plásticas, como pintura e escultura? Imagens ou palavras são os elementos ideais para expressão do não-racional? Ou a linguagem ainda carrega racionalidade suficiente para bloquear o indizível? A loucura, tão idealizada e elogiada pelos surrealistas, seria o estado-limite para a expressão? Ou a loucura seria um incomunicável e, assim, o louco um alienado da linguagem? O surrealista simula ser louco, uma vez que a loucura seria improdutiva?

O surrealismo, também o realismo mágico, o drama do absurdo, na poesia e na prosa, e outras estéticas (pintura, teatro, cinema, música), é evidente em autores os mais diversos, de várias épocas e nacionalidades, são autores não apenas contadores de estórias alheias, inventadas ou fábulas, mas falam de seus dramas, desvelam suas inquietações e desassossegos, de modo original, singular e revelador. Não que seja compreensível, pois trata-se do mundo interior, profundo de quem escreve. Uma profundidade complexa não comunicável, não representada, mas apresentada. Não se espera compreensão. Que o leitor adentre o absurdo e se identifique no teatro de espelhamentos.




O irracional na obra Onde Vais, Drama-Poesia?


Encontramos na Escrita da autora portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008), tradutora de Arthur Rimbaud, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Paul Éluard, dentre outros; alguns traços deste irracionalismo, ou mesmo surrealismo, como modo de explicitar o mundo enquanto indizível, mesmo incompreensível. Pois a vida não pode ser explicada, e a literatura revela este sentimento de incompreensão por parte do Autor/a, ou sujeito textual/eu lírico.
Podemos destacar alguns trechos de Onde Vais, Drama-Poesia? enquanto amostra de uma Literatura além do entendimento, de uma Escrita a partir do corpo, a partir de uma apreensão / vibração corporal do vivido e que deve se mostrar no escrito na forma de um 'fulgor', 

-->
Nenhum de nós estava a imaginar. Estávamos a conjecturar fisicamente no escuro. As imagens sabem que têm de caminhar para nós com o seu sexo de ler. Sem ele, são propriamente sem texto. Sabem? Sim, sabem. Utilizamos pouco o nosso sexo próprio pra fazer. Utilizamo-lo, sobretudo, para sentir e sondar. Como crianças em perpétuo crescimento, nunca estáveis numa única imagem. O que sentimos fisicamente com o sexo que temos, o que as imagens vêm procurar em nós, não é o sexo que praticamos,
é a vibração pelo vivo e pelo novo. Chamei-lhe fulgor porque é assim que sinto. [p. 33]
 

Qual a utilidade racional da obra poética? A quem interessa a poesia? Apenas ao sujeito que se expressa, ou ao menos tenta? A poesia não é interessante aos 'construtores e formadores', aqueles que racionalizam, que planejam, que “algarismam as manhãs” (em verso de Mário de Andrade, poeta brasileiro modernista) e a autora se pergunta: “por que querem submeter a visão à razão?” [p. 47]

        Pois é no âmbito do sonho o lugar da metáfora num tentativa de se expressar, num embate mundo onírico versus realidade, com suas contradições e interferências, no que pode ser descrito ou simbolizado, se possível em metáforas,

              
escrevia um sonho que tivera_____
os sexos não podem ser trocados. Era uma espécie de segredo
metafísico.
É possível, pensei, mas qual é a realidade que essa metáfora teme? [p. 54]



A dor não pode ser pensada, mas pode ser simbolizada na Escrita, pode ser aliviada pela expressão, pela tentativa de uma figuração, a partir dos manifestos nos sonhos, do que interrogamos enquanto conscientes, quando nos acreditamos donos de uma razão,


a sua dor é demasiado pura para poder ser pensada, é certo; o
texto decide oferecer-lhe um princípio de palavra, um isco,
uma hipótese,
a figura ouve-a,
envolvida numa recordação que parece gozar de uma completa autonomia 
[p. 88]



       Quando somente sobram interrogações depois que o sonho se vai, se esvanece, então eis que a razão tenta explicar aquele outro mundo “muito longe” onde o irracional viceja sem amarras da consciência, 
               
quase todos os nossos sentimentos, deus meu!, vem de muito
longe, ainda nem sequer o ser humano fora imaginado,
se o efeito é sonhado pela causa, ainda os humanos não haviam
sido sonhados,

e continuamos,
a interrogarmo-nos sobre quem nos sonhou
porque deus é palavra demasiado grande e complexa para o
efeito,
e explosão inicial demasiado impessoal para as pessoas sonhadas
que somos, [p. 114]
 


       Há um Eu que escreve sobre um Eu que sonhava, e há um desnível entre o 'vivido' no mundo onírico' e que se busca recuperar no mundo do Real, com a mediação da linguagem – um desnível que é impossível de ultrapassar, de superar, então sobram imagens desfocadas, e sem-sentido (em nonsense) para a compreensão não-onírica.

Em Busca da Troca Verdadeira
XL

Os cogumelos são, de facto, nus e, na orla do bosque, confundem-se
com o que eu não gostaria de ser; este cogumelo sonha,

a Sulamita fechou-o numa gaiola e, posto em pássaro, começou
a fenecer, e tornou-se pálido; mais tarde, lembrou-se dele
e ele rapidamente voou para uma nascente a alimentar-se de
água, de insectos e de perfumes;

[…]


se o seu sonho fosse colhido, e perdesse o seu significado,
seria a morte do meu micorizo; corram arbustos, vejam na su-
perfície da
água,
atentem nos ramos,

[…]
[p. 146-148]



O possível e explicitado entrelaçar de Poesia & corpo & fantasia na manifestação da Escrita, tentativa de expressão ainda que incompreensível, como notamos em poemas de Arthur Rimbaud (1854-1891) poeta simbolista (e também pré-surrealista?) francês, como bem sabe a autora Llansol, tradutora do autor de O Barco Bêbado, e de outros autores franceses, tais como Paul Verlaine, Charles Baudelaire, Paul Éluard, dentre outros.

Apoptose
VI

já vos falei de Rimbaud, já vos li poemas seus,
enquanto dormitais, de olho aberto e cauda repousada; é, na
paz momentânea que nos envolve, que mais se apura o grito
que lhe estilhaçou o peito:

É nos odores que se realizam as trocas, sobretudo, nos sa-
bores incomunicáveis;
'faz o texto',

dizeis, faz o poema ________________________ chorar

dentro das paredes da Casa, com a certeza de que a Casa es-
cuta musicalmente o choro,
sendo as lágrimas, na voz que murmura o texto,
um simples som; [ p. 176]


Em que nível o texto é compreensível ? O que o texto comunica? Se é que é possível comunicar. A Escrita pode ser desconhecida para o/a autor/a, que pode ignorar se o/a compreendem, se conseguem apreender os meandros da expressão,

ofereço-lhes o texto que escrevo, ignoro se o entendem, como
ignoro se a minha presença activa bate asas como a borboleta
que causa um tufão sobre o Pacífico
'é para si', e concluo 'é para nós',

exactamente como acontece ao texto que ouve o mar bramir
na copa das árvores,
a dança frenética dos elementos,
as folhas voam em sopro e em escrita ______________ os
corpos, nus, repousam como falésias,
os corpos nus das flores rasteiras
em pleno esplendor. Não sabem o que o despertar lhes trará,
sob a lei da refulgência da natureza. [VII, p. 179]


         A presença do corpo, dos elementos da natureza, das relações / correspondências entre o natural e o irracional aprofundam os laços entre o ser que escreve e o ser que sofre / vivencia, num elo de imagens que tentam reproduzir sensações, não pensamentos, ousar contatos, não conceitos. Sua voracidade de Escrita tira as cascas e mostra os cernes, sem pudores. Há corpos nus, há plantas rasteiras, há fendas não penetradas, na dança frenética da vida inexplicável. Somente uma linguagem sem-racionalidade, ou surreal, pode ousar uma fala, um testemunho, não só de Escrita, mas de Vida.

       O fato de a autora Llansol não se deixar na superfície do texto, mas sondar meandros outros numa Escrita-fulgor evidencia sua importância como porta-voz de uma interpretação não-racional, até surreal, da vida que não nos concede qualquer explicação, uma vez que vivemos sem-sentido e no absurdo, sem nada que seja amparo a não ser nossas próprias ficções, de deuses e anjos, de avatares e entidades, aguardando uma vida no além sem saber como viver esta vida em que ora nos encontramos.




REFERÊNCIAS


BRETON, André. Manifesto Surrealista [1924]. Disponível online em http://www.marxists.org/portugues/breton/1924/mes/surrealista.htmAcesso em 08.10.2013.
FREUD, Sigmund. Escritores Criativos e Devaneio. 1908 [1907] In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume IX. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
_______ . Interpretação dos Sonhos, A [1900] In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volumes IV e V . Rio de Janeiro: Imago, 1976.
LLANSOL, Maria Gabriela. Onde vais, Drama-Poesia? Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2000.












terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sujeito e ficção em Ode Fragmentária de Hilda Hilst


 








Presença e Ausência: Sujeito e ficção de Sujeitos 

em Ode Fragmentária de Hilda Hilst


Leonardo de Magalhaens

Fale / UFMG


     A importância da autora Hilda Hilst (1930-2004) tem se evidenciado após a publicação de suas obras completas, pela Globo Livros, nos anos 2000, quando a Crítica, dentro e fora das universidades, passou a analisar não apenas a fase mais polêmica, de caráter erótico-pornográfico-sarcástico, mas aquela de temática metafísica, confessional, afetiva que vem a religar a autora a uma fala feminina (não feminista) a marcar a nossa literatura nas obras de Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Clarice Lispector e Ana Cristina César, dentre outras.

     Assim as baladas e as odes da autora puderam ser mais contempladas e contextualizadas no conjunto da obra, ao se tratarem de poemas fáceis e, ao mesmo tempo, herméticos, em diálogo entre o confessional e o metafísico, com a condição do Ser Humano diante nos Deuses, ou do Demiurgo, ou da Divindade, na consciência da mortalidade, da impermanência e da finitude, na grande ausência do Eu que se entrega/ dissolve na Morte. Comecemos aqui pelas Heroicas, com um tom épico de várias vozes que são todas projeções do sujeito ficcional.


     Pois, no âmbito da poética de Hilda Hilst podem ser feitos questionamentos sobre a condição da própria poesia lírica. Poesia enquanto arte ou confissão? Um artifício ou testemunho? Onde acaba o sujeito autoral e começa o(s) sujeito(s) ficcional(is) ? Como se situa o poeta diante de seu cotidiano? Inventar/ criar a partir da dor vivida? Ou da dor imaginada? A morte pode ser simbolizada? Como a subjetividade textual mascara o medo da Morte?

Se há muito o que inventar por estes lados
O que sei com certeza são meus fados
Exigindo verdades e punindo
Os líricos enganos da beleza


     Há uma voz, um sujeito lírico, que se posiciona ao apontar para si, a reivindicar um espaço, com seus demarcados pronomes pessoais e possessivos (meus ares, meu quarto, etc) pois no texto dilui sua dor e angústia, mas também contentamento (“um todo me angustia”, “se em nada me detenho”, e “contente de mim mesma me inauguro sonora”), e mesmo se dissociando, enquanto ser múltiplo,

Bastasse o confessar-me e assim punir-me
De toda intemperança dos humanos.
Bastasse o que não sou e o refluir-me
Longínqua na maré desordenada.

     Existem, coexistem, muitas imagens – ou paisagens – dentro do sujeito lírico, que se divide num diálogo consigo mesmo, ou dá voz aos Deuses, aos seres da Transcendência, não submetidos pela sombra da mortalidade. Deus que são interlocutores, mas entes inalcançáveis, excelsos e intocáveis, a olharem os Homens como inferiores, em suas efemeridades,

Vós, humanos,
De gesto tantas vezes suplicante.
De coração ardente, dizeis?
A nós parece exangue
Esse pulsar contínuo
E tarefa insensata
Porque nós, divinos,
Temos no peito a força
O altar
A lança
E um todo movediço nos contém.


     A posição dos Deuses é contraponto à condição humana mortal, e a ressaltá-la, a torná-la marcante e dolorosa, quando seres mortais se confrontam com seres doadores da vida. E a mortalidade é melhor concebida (ou simbolizada) quando se dá voz aos mortos, como fazem (e prometem) as religiões, como ousam os esoterismos, ao verem um mundo espiritual além do fim do invólucro corpóreo,

Os mortos ressurgiram e cantaram:
Se a perfeição é a morte
Talvez por isso imortais
Há muito que existimos.
Mas se algum dentre vós
É de sopro divino,
Encantai-nos:

     É como se fosse uma ladainha de falecidos, ou um coro de tragédia grega, com as vozes desafortunadas, submetidas por um Destino inclemente, ou indiferente, num clamor coletivo de anseios incompletos (“Ai de nós, peregrinos, / Antes do amanhecer / Sonhando eternidades! / Não é nosso o destino / De amar e florescer. / Antes vertiginosos / Tateamos na sombra / A laje dos abismos.”), como seres numa beira de abismo a contemplar os Mestres (ou o vulto do Demiurgo) no topo da montanha. Esta separação cria mais angústia e mais consciência da precariedade humana.

     É voz coletiva que amplifica apenas o desassossego íntimo do Eu, ainda muito presente meio ao coro de peregrinos, ou mutilantes, ou ausentes, ou falecidos, todos projeções do desarranjo existencial do Ser consciente da mortalidade, pois este é o tema aqui. Um nunca contentar-se, um sempre desviar-se, um viver sem rumo até que a morte nos separe e disperse,

Ai de nós, mutilantes,
De afetos imprecisos,
[…]
Estuários frequentes
Desviam nossas velas.
[…]
Muito ausência...
em que montanha azul a nossa meta?


     Outra figura tem referência no coro dos desassossegos, outro vulto é elencado para a condição de voz, de testemunha da condição humana, um ser entre a memória e a imaginação, aqui a personagem do poeta, um ser predestinado, em suas alegrias e temores, “guardou-se amante, iluminou-se crente / Cobriu-se de ternuras e de lendas / Não conheceu prazer ilimitado / Que suportasse o humano e suas penas.” Poeta que recebe referência também em Quase bucólicas, onde adentra com seu cavalo, “amáveis mas indomáveis”, vulto entre a palavra e o silêncio, o testemunho e a solidão,

O poeta – e seu vocábulo.
O cavalo – e seu pedaço de terra
Mais nas alturas

De brisa,

De solidão e hortaliças.

Entrelaçadas aspiram
Respiram juntos

 
    O poeta que presentifica a própria condição da autora, que ousa o poetizar, que ousa testemunhar seu (nosso) “mundo oscilante”, que viveu entre bonanças e vendavais, que “tribulações e medo padeceu”, que sabe-se clarividente, mas que de fato “canto o que vejo mas antes / Canto o que a alma deseja”. A poeta fala do poeta como num processo de dissociação, de separação de eu autoral e eu ficcional. Pode, assim, adquirir novas identidades, cavalgar na fantasia, ao tentar contemplar a vida e simbolizar a Morte. Morte: tema por excelência aqui (e na obra da autora, conforme ela mesma evidencia em entrevistas). Morte que dá sentido ao viver? Ou morte que é completo absurdo? Morte em-si ou a consciência de ser finito? Novamente: a Morte pode ser simbolizada? Imagens, cenas de luto, melancolia e perda, apenas rituais para apaziguar a dor: não explicá-la. Não pode se explicar o sofrimento.

     Eu ficcional que caminha entre perdas e perdidos, que procura um caminho num mundo sem rumos, marcada pela infância, confundida pela maturidade, tendo apenas o recurso do poetizar o vivido e o imaginado, “Eu caminhava alegre entre os pastores / E tatuada de infância repetia / Que é melhor em verdade ter amores / E rima transitória para o verso.” E caminhando, só em seu percurso, outras vozes, geradas pela própria voz lírica, consigo mesma, “eu senhora de vaidades”, vem partilhar a condição de ser no Tempo, na impermanência, com a corrosão e o fim da infância, e a necessidade de assumir a maturidade, mesmo com certa desesperança e niilismo,

Tempo não é, senhora, de inocências.
Nem de ternuras vãs, nem de cantigas.
Antes de desamor, de impermanência.

Tempo não é, senhora, de alvoradas.
Nem de coisas afins, toques, clarins.
Antes, da baioneta nas muradas

 
    Há todo um mal-estar com a passagem do Tempo, um ser simbolizado pela corrosão, no movimento sem volta de nascer e morrer, “à medida que o tempo nos desgasta”, num processo onde se entrelaçam amor e morte, Eros e Thanatos, pois “amor, o que renasce. / Voltando sempre.”, a tornar o sujeito lírico um ser submisso à perenidade, desejosa do amor, e temendo, sim, “tornou-me submissa e receosa”, pois há anseio e temor, uma culpa por querer, sempre em vão, “persegues / te persigo / vais e vens”.

      Assim, sempre a oscilar entre o desejo de viver e a consciência do morrer, o sujeito lírico cria possibilidades de si mesmo, outras variantes em vozes distintas, e até dissonantes, para representar sua clivagem interior. Do eu autoral, o qual não temos acesso, vários outros eus ficcionais têm nascimento, ao proliferarem textualmente, ao se contraporem, Homens e Deuses, Desejo e Fuga, Amor e Tempo, todos íntimos, mas demasiado estranhos, um verdadeiro Unheimlich freudiano, ou seja, o que é familiar e estranho ao mesmo tempo.

     É dessas ambiguidades íntimas que surgem as imagens fundidas, bizarras, entre a celebração e a lamúria, ora niilista, ora bailante, ora acreditando no Amor, ora sentindo-se corroer pelo Tempo, que evidenciam a fragmentação das justamente intituladas Odes fragmentárias. O sujeito lírico tenta se encontrar, mas o que consegue é dar voz a outros Eus possíveis, é se distanciar do Eu autoral, é não ser mais Hilda Hilst, ser finito, mas um ser diante do Demiurgo, das Divindades, do Criador.

     Um sujeito feito de palavras a indagar, entre angustiado e ousado, sobre a condição humana, simbolizada nas imagens poéticas, deslocadas e condensadas, como um sonho dado em pedaços de vivências estilhaçadas, numa tessitura de ode em fragmentos, assim como fragmentária é a identidade, enredo montado pelos retalhos da memória. Não é a autora que tem a palavra final, ou a rota a ser seguida. Então cabe aos leitores acharem o fio da meada, e adentrar um labirinto, sim, um “sofrido caminho”.




REFERÊNCIAS


COELHO, Nelly Novaes. A poesia obscura/luminosa de Hilda Hilst; A metamorfose de nossa época; Fluxo-floema e Qadós: a busca e a espera. in: _____. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993


Fico besta quando me entendem. Entrevistas com Hilda Hilst. Celestiano Diniz (org.) São Paulo: Globo, 2009.

HILST, Hilda. Ode fragmentária . São Paulo: Anhambi, 1961.