sexta-feira, 26 de setembro de 2014

SUMIDO - texto de Luís Fernando Veríssimo


 


Luís Fernando Veríssimo

[crônica]



SUMIDO

     Me disseram "Você anda sumido" e me dei conta de que era verdade. Eu também, fazia tempo que não me via. O que teria acontecido comigo? Não me encontrava nos lugares em que costumava ir. Perguntava por mim e as pessoas diziam "É verdade, você anda sumido". E "Que fim levou você?" Eu não tinha a menor ideia que fim tinha me levado. A última vez em que me vira fora, deixa ver... Eu não me lembrava!
     Eu teria morrido? Impossível, na última vez em que me vira eu estava bem. Não tinha, que eu soubesse, nenhum problema grave de saúde. E, mesmo, eu teria visto o convite para o meu enterro no jornal. O nome fatalmente me chamaria a atenção.
     Eu podia ter mudado de cidade. Era isso. Podia ter ido para outro lugar, podia estar em outro lugar naquele momento. Mas por que iria embora assim, sem dizer nada para ninguém, sem me despedir nem de mim? Sempre fomos tão ligados.
     No outro dia fui a um lugar que eu costumava frequentar muito e perguntei se tinham me visto. Não era gente conhecida, precisei me descrever. Não foi difícil porque me usei como modelo. "Eu sou um cara, assim, como eu. Mesma altura, tudo". Não tinham me visto. Que coisa. Pensei: como é que alguém pode simplesmente desaparecer desse jeito?
     Foi então que comecei, confesso, a pensar nas vantagens de estar sumido. Não me encontrar em lugar algum me dava uma espécie de liberdade. Podia fazer o que bem entendesse, sem o risco de dar comigo e eu dizer "Você, hein?". Mudei por completo de comportamento. Me tornei - outro! Que maravilha. Agora, mesmo que me encontrasse, eu não me reconheceria.

     Comecei a fazer coisas que até eu duvidaria, se fosse eu. O que mais gostava de ouvir das pessoas espantadas com a minha mudança era: "Nem parece você". Claro que não parecia eu. Eu não era eu. Eu era outro!

     Passei a me exceder, embriagado pela minha nova liberdade. A verdade é que estar longe dos meus olhos me deixou fora de mim. Ou fora do outro. E um dia ouvi uma mulher indignada com o meu assédio gritar "Você não se enxerga, não?" E então, tive a revelação.
     Claro, era isso. Eu não estava sumido. Eu simplesmente não me enxergava. Como podia me encontrar nos lugares onde me procurava se não me enxergava? Todo aquele tempo eu estivera lá, presente, embaixo, por assim dizer, do meu nariz, e não me vira.
 
     Por um lado, fiquei aliviado. Eu estava vivo e bem, não precisava me preocupar. Por outro lado, foi uma decepção. Concluí que não tem jeito, estamos sempre, irremediavelmente, conosco, mesmo quando pensamos ter nos livrado de nós.
     A gente não desaparece. A gente às vezes só não se enxerga.




Fonte: facebook do autor











quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Espaço em Sagarana [contos] de João Guimarães Rosa









Espaço em Sagarana de João Guimarães Rosa


Leonardo de Magalhaens

Fale/UFMG


       A importância do espaço nos contos do autor mineiro João Guimarães Rosa [1908-1967] se evidencia pelas referencialidades contidas nos textos, com ampla catalogação de acidentes geográficos, a saber, as serras, os rios, os córregos, as várzeas, os campos. Contudo, tais referências não se encaixam como panorama naturalista, mas antes como um cenário para os dramas das personagens. Podem exceder-se como alegoria, como simulacros, rumo a um caráter mais do que regional, antes universal.
       Em seus embates épicos nos sertões, as personagens, sejam os humanos ou os animais, fazem despertar dramas que podem se localizar em qualquer lugar – não somente no sertão mineiro ou nordestino. Há um caráter de universal – qualquer lugar – como cenário da epopeia dos sujeitos com outros e consigo mesmos.
       Assim há referencial e simulacro ao mesmo tempo, pois não estamos diante de uma obra de ficção fantástica ou mero produto de linguagem, antes um entrelaçar de elementos do real, num realismo para além do real, num transrealismo. Um realismo que não se prende ao regionalismo, mas que, a partir deste, se expande para o universalismo, das relações e embates humanos.

       Em tal transrealismo, ou realismo transcendental, o crítico literário, e pensador católico-liberal Tristão de Ataíde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, 1893-1983) identifica a capacidade estilística de Guimarães Rosa em integrar em sua obra o 'espírito telúrico' e o 'espírito oceânico', sendo o primeiro voltado ao solo, ao regional, e o segundo voltado ao mundo, ao universal, a oscilar entre terra e mar. Para ilustrar tais 'espíritos', Ataíde aponta Alencar e Euclides da Cunha como voltado ao 'telúrico', e Machado de Assis mais ao 'oceânico', como bem mostra o trecho citado em Brandão (2013: 170),
À primeira vista Guimarães Rosa pertence mais à família euclidiana que à família machadiana. Na realidade, o que nele se encontra é mesmo a integração dos dois espíritos, embora com aparente predomínio da vertente alencarina ou telúrica. Isso porque a paisagem e a palavra desempenham um papel muito importante em sua expressão estética e tanto uma como outra em estreita ligação com a realidade sertaneja. Mas nada é mais estranho à sua literatura do que o regionalismo. Será sertanista mas não regionalista.


       Assim, além do realismo regionalista, além da catalogação descritivista, portanto, está a obra de Guimarães Rosa, em sua capacidade de partir do referencial para a fabulação, de reencantar com aspectos míticos, com dramas universais o que ocorre localmente, nos campos gerais, imerso no coloquialismo re-criado / remoldado pela linguagem.


      A extensão dos espaços do Sertão roseano tem uma ação sobre as personagens, que vivem dependentes das condições de clima e recursos hídricos, ora em seca ora em inundação, ora com fartura ora com miséria. Diretamente ligadas ao meio ambiente natural, as personagens se dedicam aos trabalhos básicos de subsistência, na agricultura e na pecuária, ou no artesanato.


       O espaço referencial é limitado, está situado no mundo sertanejo do norte-nordeste de Minas Gerais, e nordeste de Goiás, além de sul da Bahia. É um mundo já povoado e catalogado, mas que serve como cenário para embates universais. As temáticas do regionalismo estão todas aqui, mas com um tratamento diverso. Se muitos autores já se destacaram com o estilo regionalista, na condição de habitantes das cidades que voltam os olhares para as agruras do sertanejo (vide O Quinze de Rachel de Queiroz, ou Vidas Secas de Graciliano Ramos), o autor Guimarães Rosa se aventurou pelas veredas e coletou para sua literatura as vicissitudes do mundo sertanejo.

       Não apenas catalogação de cronista ou escrita acadêmica, mas um tom fabulístico, a dar voz às personagens, aos seres e aos elementos. Assim como na literatura fantástica temos os animais que pensam e falam, em voz humana, em contos e Rosa é possível adentrar a perspectiva de um burrinho, ou de alguns bois que observam – com olhares críticos! - o viver humano. É no desejo de uma fábula transrealista, além de qualquer Esopo ou La Fontaine, para ver o humano – e sua condição - com outros olhos, a partir de um real / regional. Se os animais pensam, ou falam, é com o propósito de re-encantar o mundo, como nas narrativas míticas ou folclóricas, através de uma fabulação. (Uma vez que o 'desencantamento do mundo', Entzauberung der Welt, foi denunciado pelo sociólogo alemão Max Weber (1864-1920))
       Este re-encantamento do mundo demonstra uma releitura das sagas e lendas, nas epopeias de Ilíada e Odisseia, de Eneida e Edda, de Beowulf e O Anel dos Nibelungos, de El Cid e Kalevala, de Jerusalem Libertada e Orlando Furioso, de Os Lusíadas e Paraíso Perdido, no sentido de apresentar os embates dos humanos com os elementos da natureza e com os outros homens, aliados e inimigos.
É no intuito de nova saga, de sagarana, que os contos de Rosa se apresentam, ao destacarem o épico na vida sertaneja, revista pelo estilo realista-mítico. Afinal, o que todos os contos compartilham é o espaço, o cenário regional-cósmico do sertão. (Atualmente, muito da literatura vendável se dedica aos temas épicos e fantásticos mas no sentido de entretenimento, não de aprofundamento existencial.)
       Assim entende-se que um burrinho pedrês (no conto Burrinho Pedrês) seja uma personagem central num drama onde as forças humanas se defrontam com as forças da natureza, a necessidade de subsistência de uma vida tradicional seja confrontada pelas águas das inundações, no 'ano das grandes chuvas'. O drama se desenrola ao redor do burrinho Sete-de-Ouros, que, aprisionado na faina humana, acompanha a tropa pelo sertão, este espaço aqui delimitado, “no vale do Rio das Velhas, no centro de Minas Gerais.” (p. 18), e logo expandido,
E comprimiam-se os flancos dos mestiços de todas as meias-raças plebeias dos campos-gerais, do Urucuia, dos tombadores do Rio Verde, das reservas baianas, das pradarias de Goiás, das estepes do Jequitinhonha, dos pastos soltos do sertão sem fim. (p. 19)


       O drama humano visto pelos olhos de um burrinho, que é arrastado a compartilhar as aventuras e desventuras, na miséria da vida sertaneja, no ambiente agreste, entre as secas e as enchentes. Tanto humanos quanto animais reagem ao meio ambiente, aos espaço de extremos, sem cordialidade, mas asperezas. A vida é dura, “o sertão é perigoso”, com suas boiadas e tropeiros, com seus jagunços e cavaleiros, com seus coronéis e posseiros, em arena de embates.
E era bem o regolfo da enchente, que tomava conta do plaino, até onde podia alcançar. Os cavalos pisavam, tacteantes. Pata e peito, passo e passo, contra maior altura davam, da correnteza, em que vogava um murmúrio. A inundação. Mil torneiras tinha a Fome, o riacho ralo de ontem, que da manhã à noite muita água ajuntara, subindo e se abrindo ao mais. (p. 75)


       A travessia e superação são tematizadas no longo conto A Hora e Vez de Augusto Matraga, onde o espaço é cenário para o sofrimento e para a redenção do protagonista Nhô Augusto, um impulsivo homem bom de briga que colhe as tempestades depois de semear ventos. Ele sofre em seu meio, é fruto de sua secura e aridez, está envolto na casca-grossa da insensibilidade, até que é tarde demais.

        As marcações de espaço são evidentes, principalmente na triangulação entre Pindaíbas, Tombador e Arraial do Rala-Côco, numa delimitação dos passos do protagonista no sertão-mundo, desde o adro da igreja até as fazendas no rumo das serras.
Caminharam para casa. Mas para a casa do Beco do Sem-Ceroula, onde só há três prédios - cada um deles com gramofone tocando, de cornetão à janela - e onde gente séria entra mas não passa.
Nisso, porém, transpunham o adro, e Nhô Augusto parou, tirando o chapéu e fazendo o em-nome-do-padre, para saudar a porta da igreja. Mas o lugar estava bem iluminado, com lanterninhas e muita luz de azeite, pendentes dos arcos de bambu. (p. 344)
Na fazenda - no Saco-da-Embira, nas Pindaíbas, ou no retiro do Morro Azul - ele tinha outros prazeres, outras mulheres, o jogo do truque e as caçadas. (p. 346)

       Ao se considerar o espaço, há trechos em que a marcação é mais evidente, mais longa, quase cartográfica, quase um mapa a assinalar os passos da travessia/superação do protagonista, quase assassinado, mas que se recupera, a espera de sua 'hora e vez', enquanto adentra nos nichos do sertão-mundo, com seus acidentes geográficos enquanto cenário para as transposições/transfigurações da linguagem,
Foram norte a fora, na derrota dos criminosos fugidos, dormindo de dia e viajando de noite, como cativos amocambados, de quilombo a quilombo. para além do Bacupari, do Boqueirão, da Broa, da Vaca e da Vacaria, do peixe-Bravo, dos Tachos, do Tamanduá, da Serra-Fria, e de todos os muitos arraiais jazentes na reta das léguas, ao pé dos verdes morros e dos morros de cristais brilhantes, entre as varjarias e os cordões-de-mato. E deixavam de lado moendas e fazendas, e as estradas com cancelas , e roçarias e sítios de monjolos, e os currais do Fonseca, e a pedra quadrada dos irmãos Trancoso; e mesmo as grandes casas velhas, sem gente mais morando, vazias como os seus currais. E dormiam nas brenhas, ou sob as árvores de sombra das caatingas, ou em ranchos de que todos são donos, à beira das lagoas com patos e das lagoas cobertas de mato. Atravessaram o Rio das Rãs e o Rio do Sapo. E vieram, por picadas penhascosas e sendas de pedregulho, contra as serras azuis e as serras amarelas, sempre. depois, por baixadas, com outeiros, terras mansas. Em paragens ripuárias, mas evitando a linha dos vaus, sob o voo das garças, - os camilhões por onde as boiadas vem, beirando os rios. (p. 358)


        Em terreno tão recortado, acidentado, desorientado, a linguagem se delicia em comparar homem e natureza, homem e animal, animal e terreno, numa amálgama de natureza 'naturalista' e natureza' sujeito', onde o 'estar-no-sertão' é estar condicionado ao estado de carência do viver com pouco na abundância dos espaços. A própria caracterização de personagem se dá pela abrangência de sua fama no espaço, na vastidão do sertão, sendo o chefe-de-jagunços Joãozinho Bem-Bem um caboclo dos mais 'famigerados' (tema de outro conto singular de Rosa) por todas as bandas do mundo sertanejo,
... - era o homem mais afamado dos dois sertões do rio: célebre do Jequitinhonha à Serra das Araras, da beira do Jequitaí à barra do Verde Grande, do rio Gavião até nos Montes Claros, de Carinhanha até Paracatu; ... (p. 365)


        Assim, desde a viagem, a catalogação, o fichamento de cultura-pessoas-fauna-flora, o espaço enquanto cenário, a obra de Guimarães Rosa vem num crescendo desde um referencial de realismo-regionalismo até um construto de linguagem original e ímpar, que transcende (portanto, realismo transcendental, ou transrealismo) do regional para o universal.

2014



Referências


ATAÍDE, Tristão de. O transrealismo de G. R. In: COUTINHO, A. C. Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
BRANDÃO, Luis Alberto. Teorias do Espaço Literário. Coleção Estudos. São Paulo: Perspectiva, 2013.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

3 textos de Fernando Bonassi - in A Boca no Mundo


 

 




Fernando Bonassi

 



crônicas na Folha de São Paulo
 


2002 - 2006


 




9/ BREVE ESTUDO SOBRE A NORMALIDADE


 
Normalmente é um encontro. Normalmente é num tesão. Normalmente é um receio. Normalmente é uma espera. Normalmente é urgente.

Normalmente é cesariana. Normalmente o leite empedra. Normalmente as fraldas fedem. Normalmente os filhos crescem. Normalmente as tias mimam. Normalmente as mães reclamam. Normalmente os pais se mandam... normalmente é uma outra.

Normalmente dá despesa. Normalmente dá trabalho. Normalmente é sem emprego.

Normalmente o recheio é pouco. Normalmente a casca é grossa. Normalmente o buraco é fundo. Normalmente é lá pra baixo. Normalmente o mais gostoso.

Normalmente o rabo não encurta, a curiosidade não mata e nem todos que têm boca chegam à Roma.

Normalmente as camisinhas são guardadas, as contas pagas, inconfidências escapam, o estômago se revolta, o veneno é conhecido e alguém já havia pensado nisso antes.

Normalmente os últimos ficam sem. Normalmente os primeiros têm mais medo. Normalmente os do meio não levam vantagem. Normalmente é sacanagem.

Normalmente vocações são encontradas, normalmente virgindades são perdidas: os dedos apontados, as pernas abertas, as mãos estendidas.

Normalmente os calos surgem. Normalmente o sapato aperta. Normalmente o troço é mole. Normalmente o espelho alerta. Normalmente a vingança é fria. Normalmente faltam dentes. Normalmente o vizinho espia. Normalmente a orelha quente. Normalmente os mundos se fazem de surdos e os cães guiam os cegos.

Normalmente falta luz. Normalmente a água bate por aqui. Normalmente aqui é o único lugar. Normalmente os afogados comem o peixe cru. Normalmente coisas são pescadas no ar. Normalmente o ar está poluído pelas coisas que são arremessadas nele. Normalmente encanamentos e encanadores dão problemas de manutenção. Normalmente a inocência é uma explicação.

Normalmente é o passado, uma oportunidade, um sofrimento, uma esperança. Normalmente é um consolo. Normalmente se ajeita, se conversa, se aceita.

Normalmente amanhece o dia. Normalmente suaviza a noite.
Normalmente sonhos e pesadelos se confundem. Normalmente a confusão é desfeita com um pouco de consciência. Normalmente consciência é sabedoria. Normalmente a sabedoria está na escola. Normalmente os professores corrigem provas. Normalmente as provas são insuficientes.
Normalmente os curiosos são mais rápidos que a polícia; a polícia mais rápida que as ambulâncias e as ambulâncias mais rápidas que os carros funerários.
Normalmente é tiro trocado, é arma raspada, é sem testemunha.
Normalmente as leis são compridas e as letras minúsculas. Normalmente as obrigações são maiores. Normalmente os juízes não têm pena.
Normalmente os sorrisos, as piteiras, as roupas de baixo, os jornais e as fotografias amarelam.
Normalmente os mapas se complicam, os tênis se desgastam, os povos se misturam, as paixões se esgarçam, os monumentos são recobertos pela bosta das pombas e a História se repete.
Normalmente os pedestres são atropelados pelos bois, os bois são atropelados pelos carros, os carros pelos ônibus, os ônibus pelos trens e muitos aviões sobem por aqueles que caem. Normalmente as estatísticas confortam os ateus. Normalmente ateus viajam de avião. Normalmente os ateus vão à igreja.
Normalmente o Diabo tenta. Normalmente Deus perdoa.
Normalmente a carne é fraca e a vontade é grande. Normalmente é de fumar, é de beber, é de cheirar ou de comer. Normalmente é proibido. Normalmente é tudo junto. Normalmente a gente faz.
Normalmente os valores passam pelas rugas, a decência pelas blusas, os ferros pelos vincos, os prazeres pelas calças, a poesia pelas musas, as malas pelas alças e os inimigos pelas costas.
Normalmente as feridas cicatrizam e as varizes aparecem. Normalmente os sacos enchem e as bundas caem. Normalmente é cada vez mais ginástica por peso vencido. Normalmente há um sentido. Normalmente há um marido.

Normalmente não tem cigarro. Não tem pulmão. Normalmente não tem trocado, não tem espaço, não tem importância.
Normalmente é da carteira pra bolsa e da bolsa pro caixa. Normalmente é o mercado, o supermercado, o hipermercado etc.
Normalmente é uma hora e outra. Normalmente é desde sempre. É um ovo, um arroz e um feijão. Normalmente há uma razão. Normalmente só complica. Normalmente é um princípio. Normalmente um precipício.
Normalmente está lotado: um caminho é cortado, palavrões arremessados no retrovisor, milhões de mortos no televisor.
Normalmente atrás vem mais. Normalmente uma necessidade. Normalmente é outra fila, uma taxa, uma bolacha.
Normalmente a especialidade é cara, o salário é pouco, a fome é tanta, o remédio é raro... mas a morte é certa.


fonte: A BOCA NO MUNDO – 100 crônicas de Fernando Bonassi
São Paulo / Novo Século / 2007








16/ TEXTO PARA LEITURA

O que dizer por todos esses livros no zoológico das estantes?
Livros são animais sexuados: livros são metidos, livros são gestados, livros são paridos. Livros crescem, como meninos. Livros sangram, como meninas. Livros infantis com ideias de aprendiz. Livros de aventura pra estimular a travessura. Livros de iniciação pras pessoas em formação. Todo livro é um livro da vida (mesmo os livros de contabilidade, que são livros de dívidas). Livros de poesia controlam a azia. Livros de História fortalecem a memória. Livros de viagem aperfeiçoam a paisagem. Livros de religião aumentam a devoção. Livros de química servem pra misturar. Livros de teste, pra confundir. Livros de lógica, pra entender. Livros didáticos, pra explicar. Livros revolucionários são livros vermelhos espetados no ar. Livres pra reclamar, livros de arrepiar!
Mas... com quantos livros se faz uma pessoa?
Livros de tabuada pra conta calculada. Livros de auto-ajuda praquilo que não muda. Livros de lazer pra quem tem muito o que fazer. Livros de direito pra homens de respeito. Livro de reza quando a coisa pesa. Livros em liquidação para leitores sem condição. Livros de oratória, livros de ortografia, livros de culinária, livros de psicologia. Livros em orgia. Livros pornográficos levados pra cama. Livros de etiqueta pra pôr a mesa. Livros sádicos. Livros trágicos. Livros míticos. Livros pro alimento do espírito e dos editores. Livros pra vaidade dos escritores. Livros especiais. Livros espaciais. Livros de colecionadores. Livros de informática são livros de computador. Livros de condolências são livros cheios de dor. Livros ensinam a ler. Livros pro humor. Livros pra quem quiser ver. Livros loucos pra saber. Livros com ilustração auxiliam a compreensão. Livros beijados, livros mordidos. Livros apalpados, livros espremidos. Livros lambidos como frutos escorridos. Livros embebidos. Livros embevecidos. Livros abraçados como casais apaixonados. Livros são romances cultivados. São feridas, são repastos. Livros passados de mão em mão, como boas biscas. Livros de arte. Livros de artistas. Páginas arrancadas sem vergonha, livros fumados com maconha. Livros de piada. Sacos de risada. Palavras cruzadas e frases alinhavadas. Livros depenados. Livros invocados. Livros em conflito. Páginas de livros processados em juízo. Livros censurados. Livros permissivos. Os livros das sopas, os livros dos sonhos, o livro dos molhos. Livros molhados nos clubes de livros. Livros de ocorrência. Livros policiais. Livros de referência. Livros originais. Livro pra orientação num universo em expansão. Livros equivocados. Livros inquisitivos. Livros engavetados. Livros recolhidos. Livros esmagados nos ônibus lotados. Livros encoxados, livros encolhidos. Livros espalhados por baixo dos estrados. Livros deflorados. Livros chacoalhados. Livros escondidos. Livros arremessados nos divórcios acalorados. Livros feito espadas. Livros como escudos. Livros que berram e livros que são mudos. O pior livro de cego é aquele que não quer se ler. Livros na ponta da língua. Livros com a ponta dos dedos. Livros engrossam, como rapazes. Livros melhoram, como mulheres. Livros murchos, livros sujos, livros finos. Livros como manda o figurino. Livros de moda. Livros em falta. Livros de sobra. Livros que cheiram bem e livros que cheiram mal (livros de renúncia fiscal). Livros roubados. Livros comprados. Livros vendidos. Árvores de livros abatidos. Livros de cabeceira. A fertilidade dos livros de madeira. Livros exibidos como corpos oferecidos. Livros safados. Livros falados. Livros sorvidos. Livros conservadores nas gavetas dos doutores. Livros emocionais pra cólicas menstruais. Livros de regime. Livros de política. Livros de ótica. Livros de crítica. Livros diários são livros crônicos, são livros cômicos, são livros tônicos. Dicionários de livros explicados. Raciocínios apalavrados. Teses de mestrado. Bolsas de livros financiados. Tomos, tombos, citações. Parágrafos, capítulos, correções. Publicações, polêmicas, opiniões. Livros importados. Livros transportados. Livros traduzidos. Livros encomendados, livros encarecidos. Livros encardenados como faraós embalsamados. Livros aposentados. Livros comentando livros. Livros lavrados em cartórios hereditários. Livros aplicados e homens especializados. Diplomas de livros emparedados. Livros emparelhados. Bibliotecas de livros amontoados. Sebos empoeirados. Livros decorados são livros encruados são livros mal comidos. Livros devorados por vermes aculturados. Livros bichados. Livros suados. Livros vencidos. Caixas e caixas de livros caixa. Arquivos mortos em pandemônio, as fortunas dos livros de patrimônio. Livros de capas trocadas, capas disfarçadas, capas ofensivas. Livros de capas ousadas. Capas proibidas. Os livros contra capas. Os lidos pelas costas. Livros sádicos, livros cínicos, livros mágicos. Livros lívidos, livros épicos, livros bíblicos. Livros lidos como vícios. Livros de sacrifícios. Todo homem é um livro aberto. Todo livro acha que é certo. Escreveu, não leu, continua sendo livro. Já no início era verbo! Larga a mão de ser burro e leia.


fonte: A BOCA NO MUNDO – 100 crônicas de Fernando Bonassi
 

São Paulo / Novo Século / 2007



 









18 / HOMEM-BOMBA


 



(A Murilo Mendes)


O Homem-bomba, futuro inquisidor, decora o livro sagrado e soletra estilhaços do caos. O Homem-bomba prepara um discurso épico e fala sozinho com as câmeras de televisão. O Homem-bomba terá, no mínimo, assegurado seus quinze minutos de fama. O Homem-bomba recebe extrema unção em solitários estúdios isolados antes da última ceia. O Homem-bomba, independente dos nossos erros, será abençoado.

O Homem-bomba fará uma refeição simples. O Homem-bomba rezará antes dela. O Homem-bomba não comerá carne. O Homem-bomba ainda se deitará entre os vivos. O Homem-bomba, se dormir, sonhará com calcinhas diáfanas, tesouras de perna aberta, espadas enterradas e umbigos deformados. O Homem-bomba poderá acordar pensando em urinar, mas quando o Homem-bomba acordar realmente, não estará mais pensando. O Homem-bomba poderá ver o dia clarear e não mudará de ideia. O Homem-bomba, na última noite, por essas e outras, poderá fazer amor.

O despertador do Homem-bomba é infalível e ele levanta cedo. O Homem-bomba toma banho, veste seu colete sob medida e um casaco pesado por cima (faça chuva ou faça sol). O Homem-bomba faz o desjejum pela última vez, como todos os últimos dias. O Homem-bomba poderá conhecer o pão que o diabo amassou, com manteiga. O Homem-bomba poderá passar geleia por cima. O café com leite do Homem-bomba terá um significado político que paulistas e mineiros desconhecem.

Outros homens, mais ou menos bombas, também se erguerão das casas geminadas desses morros de periferia pra continuar a vida. Detalhe significante: o Homem-bomba se ergue pra continuar a morte: beija a esposa, os filhos e segue para o trabalho.

O Homem-bomba não tem carteira assinada. O Homem-bomba não bate ponto. O Homem-bomba não tem férias ou cesta básica. O Homem-bomba não requererá aposentadoria. O Homem-bomba tem pressa. O Homem-bomba deixará tudo pra trás.

O Homem-bomba tem pra onde ir (o lugar do Homem-bomba é aquele onde cair morto). O Homem-bomba é um cidadão comum disfarçado de revolução e a revolução disfarçada de terra arrasada (na mochila do Homem-bomba, os talheres batucando com a marmita também seriam meros disfarces). O almoço do Homem-bomba já se encontra colado ao seu estômago: uma dúzia e meia de bananas (de dinamite). O Homem-bomba também adora os coletivos de sardinhas enlatadas pra causar indigestão. O Homem-bomba tem vale transporte ou o dinheiro contado. O Homem-bomba tem uma ilusão. O Homem-bomba tem uma certeza. O Homem-bomba tem uma missão.

O Homem-bomba não brinca com fogos (mesmo os de artifício). O Homem-bomba desafia as buzinas, as alfândegas, os alarmes e os detectores de metais. O Homem-bomba não tem pena, não tem culpa, não tem respeito. O Homem-bomba não tem paciência pra bobagens de qualquer tipo.

O Homem-bomba defende sua causa, sua casa, suas calças, mas não lavará suas roupas sujas de sangue. O Homem-bomba é um burro de carga perigosa. O Homem-bomba é instável. O Homem-bomba não pode ficar nervoso. O Homem-bomba já não teme os outros homens, bombas ou não. O Homem-bomba é um serial killer de uma vez só. O Homem-bomba não sobreviverá a esses tempos. O Homem-bomba vai... e racha-se.

O Homem-bomba sobe pelas paredes enquanto os templos vigiados fazem o possível pra não se perderem das fundações. O Homem-bomba amplia os horizontes decapitando construções e construtores. O Homem-bomba poderá se reconhecer num kamikaze. O Homem-bomba não poderá ser reconhecido depois dos acontecimentos. O Homem-bomba terá feito História.

O Homem-bomba não pega só quem é do seu tamanho. O Homem-bomba exerce sua liberdade onde não acaba a dos outros. Pro Homem-bomba, no dos outros é puro refresco ardido!

O Homem-bomba é um desmaterialista (os nossos torturadores dirão que é romântico). O Homem-bomba tem medo do escuro. O Homem-bomba acha que é maduro, mas acredita que vai encontrar um pote de delícias no fim do arco-íris. O Homem-bomba é inimigo do Homem de Lata. O Homem-bomba é parente do abridor de garrafa, do gambá, do alicate e da serpente, invocando Deus de igual para igual. O Homem-bomba alega legítima defesa às portas do inferno. O Homem-bomba é essa porcaria de vísceras misturadas nas calçadas empoeiradas. O Homem-bomba é corajoso. O Homem-bomba é mesquinho. O Homem-bomba é espetacular! Pro Homem-bomba, quanto mais quente melhor!!! O Homem-bomba sepultará as Américas com o calor de cem sóis!!!

O Homem-bomba é um louco, é um mártir, é um bosta...

Será o Homem-bomba redimido pela cirurgia dos explosivos plásticos?

O Homem-bomba... é um homem... é uma bomba... este texto se autodestruirá em cinco segundos... quatro... três...



fonte: A BOCA NO MUNDO – 100 crônicas de Fernando Bonassi
 

São Paulo / Novo Século / 2007




terça-feira, 26 de agosto de 2014

Literatura e o irracionalismo em Onde vais, drama-poesia?




Literatura e o irracionalismo / surrealismo
na obra Onde vais, drama-poesia?
de Maria Gabriela Llansol (1931-2008)


Leonardo de Magalhaens


Fale/UFMG


Introdução


       Ao relacionar sonho e ficção, Sigmund Freud, o fundador da Psicanálise, em seu artigo Escritores Criativos e Devaneios, se pergunta sobre o efeito das obras de ficção/fantasia sobre os leitores, o modo como as fantasias e devaneios dos autores atuam sobre os leitores, sobre as relações entre as fantasias e os desejos ocultados, sobre a fantasia enquanto reconquista do mundo da infância. Qual o padrão egocêntrico nas fantasias? A narrativa pode desvelar o/a autor/a? A biografia ilumina os meandros da criação artística? O efeito sobre os leitores advém da identificação com os biografemas? Ou é devido às fantasias compartilhadas?
Freud argumenta que as fantasias fazem efeito sobre os leitores pois não são apenas as fantasias do autor, mas ocorre uma confluência de fantasias, em suas sublimações e deslocamentos, quando a partir da fantasia do Outro há uma aceitação da fantasia do Eu. “Em minha opinião, todo prazer estético que o escritor criativo nos proporciona é da mesma natureza desse prazer preliminar, e a verdadeira satisfação que usufruímos de uma obra literária procede de uma liberação de tensões em nossas mentes.” Aqui uma verdadeira catarse ocorre quando tomamos contato com uma fantasia alheia reelaborada de modo estético. Assim é a literatura enquanto tentativa de dizer – e assim desvelar - o mais profundo Eu.
       Então como a literatura, e mais especificamente o surrealismo e o realismo-mágico, liberta – ou possibilita a libertação de – os conteúdos inconscientes nas elaborações das obras? Como se apresentam os conteúdos de fantasia e de devaneio nas obras dos surrealistas ou dos realistas-mágicos, dedicados ao desvelamento de absurdos? Será o transbordar do mundo onírico o modo mais comum de apresentação dos conteúdos inconscientes? Tanto a poesia quanto a prosa poética são modos ideais para manifestações do recalcado, ou se equivalem às obras plásticas, como pintura e escultura? Imagens ou palavras são os elementos ideais para expressão do não-racional? Ou a linguagem ainda carrega racionalidade suficiente para bloquear o indizível? A loucura, tão idealizada e elogiada pelos surrealistas, seria o estado-limite para a expressão? Ou a loucura seria um incomunicável e, assim, o louco um alienado da linguagem? O surrealista simula ser louco, uma vez que a loucura seria improdutiva?

O surrealismo, também o realismo mágico, o drama do absurdo, na poesia e na prosa, e outras estéticas (pintura, teatro, cinema, música), é evidente em autores os mais diversos, de várias épocas e nacionalidades, são autores não apenas contadores de estórias alheias, inventadas ou fábulas, mas falam de seus dramas, desvelam suas inquietações e desassossegos, de modo original, singular e revelador. Não que seja compreensível, pois trata-se do mundo interior, profundo de quem escreve. Uma profundidade complexa não comunicável, não representada, mas apresentada. Não se espera compreensão. Que o leitor adentre o absurdo e se identifique no teatro de espelhamentos.




O irracional na obra Onde Vais, Drama-Poesia?


Encontramos na Escrita da autora portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008), tradutora de Arthur Rimbaud, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Paul Éluard, dentre outros; alguns traços deste irracionalismo, ou mesmo surrealismo, como modo de explicitar o mundo enquanto indizível, mesmo incompreensível. Pois a vida não pode ser explicada, e a literatura revela este sentimento de incompreensão por parte do Autor/a, ou sujeito textual/eu lírico.
Podemos destacar alguns trechos de Onde Vais, Drama-Poesia? enquanto amostra de uma Literatura além do entendimento, de uma Escrita a partir do corpo, a partir de uma apreensão / vibração corporal do vivido e que deve se mostrar no escrito na forma de um 'fulgor', 

-->
Nenhum de nós estava a imaginar. Estávamos a conjecturar fisicamente no escuro. As imagens sabem que têm de caminhar para nós com o seu sexo de ler. Sem ele, são propriamente sem texto. Sabem? Sim, sabem. Utilizamos pouco o nosso sexo próprio pra fazer. Utilizamo-lo, sobretudo, para sentir e sondar. Como crianças em perpétuo crescimento, nunca estáveis numa única imagem. O que sentimos fisicamente com o sexo que temos, o que as imagens vêm procurar em nós, não é o sexo que praticamos,
é a vibração pelo vivo e pelo novo. Chamei-lhe fulgor porque é assim que sinto. [p. 33]
 

Qual a utilidade racional da obra poética? A quem interessa a poesia? Apenas ao sujeito que se expressa, ou ao menos tenta? A poesia não é interessante aos 'construtores e formadores', aqueles que racionalizam, que planejam, que “algarismam as manhãs” (em verso de Mário de Andrade, poeta brasileiro modernista) e a autora se pergunta: “por que querem submeter a visão à razão?” [p. 47]

        Pois é no âmbito do sonho o lugar da metáfora num tentativa de se expressar, num embate mundo onírico versus realidade, com suas contradições e interferências, no que pode ser descrito ou simbolizado, se possível em metáforas,

              
escrevia um sonho que tivera_____
os sexos não podem ser trocados. Era uma espécie de segredo
metafísico.
É possível, pensei, mas qual é a realidade que essa metáfora teme? [p. 54]



A dor não pode ser pensada, mas pode ser simbolizada na Escrita, pode ser aliviada pela expressão, pela tentativa de uma figuração, a partir dos manifestos nos sonhos, do que interrogamos enquanto conscientes, quando nos acreditamos donos de uma razão,


a sua dor é demasiado pura para poder ser pensada, é certo; o
texto decide oferecer-lhe um princípio de palavra, um isco,
uma hipótese,
a figura ouve-a,
envolvida numa recordação que parece gozar de uma completa autonomia 
[p. 88]



       Quando somente sobram interrogações depois que o sonho se vai, se esvanece, então eis que a razão tenta explicar aquele outro mundo “muito longe” onde o irracional viceja sem amarras da consciência, 
               
quase todos os nossos sentimentos, deus meu!, vem de muito
longe, ainda nem sequer o ser humano fora imaginado,
se o efeito é sonhado pela causa, ainda os humanos não haviam
sido sonhados,

e continuamos,
a interrogarmo-nos sobre quem nos sonhou
porque deus é palavra demasiado grande e complexa para o
efeito,
e explosão inicial demasiado impessoal para as pessoas sonhadas
que somos, [p. 114]
 


       Há um Eu que escreve sobre um Eu que sonhava, e há um desnível entre o 'vivido' no mundo onírico' e que se busca recuperar no mundo do Real, com a mediação da linguagem – um desnível que é impossível de ultrapassar, de superar, então sobram imagens desfocadas, e sem-sentido (em nonsense) para a compreensão não-onírica.

Em Busca da Troca Verdadeira
XL

Os cogumelos são, de facto, nus e, na orla do bosque, confundem-se
com o que eu não gostaria de ser; este cogumelo sonha,

a Sulamita fechou-o numa gaiola e, posto em pássaro, começou
a fenecer, e tornou-se pálido; mais tarde, lembrou-se dele
e ele rapidamente voou para uma nascente a alimentar-se de
água, de insectos e de perfumes;

[…]


se o seu sonho fosse colhido, e perdesse o seu significado,
seria a morte do meu micorizo; corram arbustos, vejam na su-
perfície da
água,
atentem nos ramos,

[…]
[p. 146-148]



O possível e explicitado entrelaçar de Poesia & corpo & fantasia na manifestação da Escrita, tentativa de expressão ainda que incompreensível, como notamos em poemas de Arthur Rimbaud (1854-1891) poeta simbolista (e também pré-surrealista?) francês, como bem sabe a autora Llansol, tradutora do autor de O Barco Bêbado, e de outros autores franceses, tais como Paul Verlaine, Charles Baudelaire, Paul Éluard, dentre outros.

Apoptose
VI

já vos falei de Rimbaud, já vos li poemas seus,
enquanto dormitais, de olho aberto e cauda repousada; é, na
paz momentânea que nos envolve, que mais se apura o grito
que lhe estilhaçou o peito:

É nos odores que se realizam as trocas, sobretudo, nos sa-
bores incomunicáveis;
'faz o texto',

dizeis, faz o poema ________________________ chorar

dentro das paredes da Casa, com a certeza de que a Casa es-
cuta musicalmente o choro,
sendo as lágrimas, na voz que murmura o texto,
um simples som; [ p. 176]


Em que nível o texto é compreensível ? O que o texto comunica? Se é que é possível comunicar. A Escrita pode ser desconhecida para o/a autor/a, que pode ignorar se o/a compreendem, se conseguem apreender os meandros da expressão,

ofereço-lhes o texto que escrevo, ignoro se o entendem, como
ignoro se a minha presença activa bate asas como a borboleta
que causa um tufão sobre o Pacífico
'é para si', e concluo 'é para nós',

exactamente como acontece ao texto que ouve o mar bramir
na copa das árvores,
a dança frenética dos elementos,
as folhas voam em sopro e em escrita ______________ os
corpos, nus, repousam como falésias,
os corpos nus das flores rasteiras
em pleno esplendor. Não sabem o que o despertar lhes trará,
sob a lei da refulgência da natureza. [VII, p. 179]


         A presença do corpo, dos elementos da natureza, das relações / correspondências entre o natural e o irracional aprofundam os laços entre o ser que escreve e o ser que sofre / vivencia, num elo de imagens que tentam reproduzir sensações, não pensamentos, ousar contatos, não conceitos. Sua voracidade de Escrita tira as cascas e mostra os cernes, sem pudores. Há corpos nus, há plantas rasteiras, há fendas não penetradas, na dança frenética da vida inexplicável. Somente uma linguagem sem-racionalidade, ou surreal, pode ousar uma fala, um testemunho, não só de Escrita, mas de Vida.

       O fato de a autora Llansol não se deixar na superfície do texto, mas sondar meandros outros numa Escrita-fulgor evidencia sua importância como porta-voz de uma interpretação não-racional, até surreal, da vida que não nos concede qualquer explicação, uma vez que vivemos sem-sentido e no absurdo, sem nada que seja amparo a não ser nossas próprias ficções, de deuses e anjos, de avatares e entidades, aguardando uma vida no além sem saber como viver esta vida em que ora nos encontramos.




REFERÊNCIAS


BRETON, André. Manifesto Surrealista [1924]. Disponível online em http://www.marxists.org/portugues/breton/1924/mes/surrealista.htmAcesso em 08.10.2013.
FREUD, Sigmund. Escritores Criativos e Devaneio. 1908 [1907] In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume IX. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
_______ . Interpretação dos Sonhos, A [1900] In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volumes IV e V . Rio de Janeiro: Imago, 1976.
LLANSOL, Maria Gabriela. Onde vais, Drama-Poesia? Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2000.